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Vaijanika Kriya Yoga Paddhati (O Método Científico da Kriya Yoga), capítulo 1: Princípios da Kriya Yoga

Por Paramahamsa Hariharananda

Capa original de
de Vaijnanika Kriya Yoga Paddhati,
escrito no idioma oriá.



Livro original escrito em oriá, Vaijnanika Kriya Yoga Paddhati
Traduzido para o português, a partir da tradução em inglês, por Graziella Schettino Valente, com revisão de Yogacharya Céu.
São Paulo, Brasil, 2022


1

Princípios da Kriya Yoga

Kriya Yoga é uma bela técnica de meditação, que precisa ser aprendida com um professor, tanto sua teoria quanto sua prática. Esse caminho utiliza experiência direta, semelhante a aprendizagem por observação científica. Se aprendida com qualquer um que não seja uma pessoa plenamente realizada[1] em Kriya ou um iogue altamente avançado, a prática não dará resultados. Aqueles que não atingiram o apogeu da Realização de Si, ou provaram o apreciado estágio – um bem-aventurado estado de amor e devoção – irão certamente ganhar má reputação se eles ensinarem outros, e as pessoas que aprenderem com eles não irão se elevar no caminho espiritual da Realização de Si. Está escrito na Bíblia (Mateus 15:14): “Da mesma maneira que uma pessoa cega conduz outra pessoa cega e ambos caem na valeta, também um buscador ignorante não pode ser um farol de luz para outros.”

A palavra “yoga” deriva da raiz yuj, que significa estar unido ou permanecer no estado de unidade. Em outras palavras, através de técnicas científicas, o eu encarnado (jiva) está unido ao Eu universal (Brahman). Um iogue pode ser alguém que tenha responsabilidade pelo sustento ou cuidado da família ou que seja um monge renunciado; em ambos os casos, essa pessoa permanece sempre unida a Deus praticando métodos ióguicos. Essa realização da unidade entre a alma individual e o Eu Supremo é ioga.

Yogiraj Shyamacharan Lahiri,
mais conhecido como Lahiri Mahasaya

Na era moderna, Yogiraj Shyamacharan Lahiri reviveu o antigo conhecimento do controle da respiração sutil, uma técnica científica conhecida como Kriya Yoga. O Bhagavad Gita (2:50) diz, yogah karmasu kaushalam: “Ioga é a maneira adequada de alcançar ação correta”. É também uma técnica ou método para a Realização Divina. Kriya Yoga é uma técnica que pode ser praticada para atingir o bem-aventurado estágio de samadhi nesta mesma vida. Esta é a verdadeira adoração a Deus. O Yoga Sutra de Patanjali (Sadhana Pada, sutra 1) diz, tapah svadhyaya Ishvara pranidhanani kriya yogah: “Kriya Yoga é a arte da oração interior com controle da respiração, autoestudo e puro amor pelo Divino.”

Na opinião sagrada de Shri Shyamacharan, Kriya Yoga é uma combinação de diferentes técnicas, como pranayama, Khechari mudra, Jyoti mudra e ouvir o som divino, ver a luz divina e assim por diante. Todas essas técnicas são apenas maneiras para alcançar o estágio de samadhi.

Paramahamsa Yoganandaji, um dos discípulos de Swami Shriyukteshwarji que se tornou um mestre realizado na linhagem de Kriya Yoga, afirmou que a espiritualidade não pode ser comprada no mercado. Deve ser conquistada com muito trabalho e esforço próprio. No entanto, muitas pessoas estavam aprendendo e praticando Kriya Yoga principalmente pela leitura dos livros dele. Uma compreensão geral a respeito da filosofia de Kriya Yoga pode ser obtida lendo livros, mas, a menos que seja aprendida adequadamente com um mestre Autorrealizado ou um estudante avançado designado, não alcançará o resultado desejado. Como apontado novamente por Paramahamsa Yoganandaji, um mestre Autorrealizado acende a consciência espiritual no coração de um discípulo sincero. O guru preceptor é o mensageiro de Deus. O fluxo imperecível e perene da tradição do guru nunca foi interrompido e continua a fluir ininterruptamente ainda hoje. 

Yogananda sentado ao lado de Sree Yukteshwar,
no Ashram de Karar, na cidade de Puri
Orissa (Odisha), Índia

Sentado próximo aos gurus da tradição de Kriya Yoga – Swami Shriyukteshwar Giri, Sanyal Mahasaya, Paramahamsa Yoganandaji e Swami Satyanandaji – eu venho praticando Kriya Yoga em uma atmosfera de solidão, reclusão e silêncio desde 1932. Como resultado dessa prática em reclusão e silêncio, eu aprendi não apenas como abrir as pétalas de lótus dos seis centros para conduzir os buscadores à Realização Divina, mas também realizei que Kriya Yoga é a essência de todas as religiões. Os renunciantes convictos, brahmacharis e sannyasins da Índia, mergulhando além do véu da natureza externa, realizaram a imanente sublime verdade desta natureza. Kriya Yoga não é meramente um discurso filosófico ou intelectual. Na realidade, é o estágio da percepção não sensorial, de completa fusão e união com Deus. Pela graça dos gurus da linhagem de Kriya Yoga, alcancei o estágio de nirvikalpa samadhi e gostaria de compartilhar uma parte da minha essência realizada, em forma de livro, para o benefício das pessoas do mundo todo.

O corpo é muito temporal. Não sei se algum buscador antes de mim realizou a mesma essência que encontrei praticando Kriya Yoga. A experiência e a realização de cada pessoa são únicas. Também não sei se durante a iniciação outras pessoas podem instilar vibração divina, luz divina e som divino da cabeça aos pés em seus discípulos. Depois de atingir o nirvikalpa samadhi em 1948 e Paramahamsa Yoganandaji solicitar que eu ensinasse Kriya Yoga, venho infundindo a vibração divina em discípulos do muladhara chakra (centro inferior) ao sahasrara chakra (fontanela) e até mesmo ao brahmaloka (céu alto no espaço).  Até atingir o nirvikalpa samadhi, eu não conhecia essa técnica de infundir o poder divino. Renunciando a tudo, pratiquei esta técnica dia após dia, mês após mês, ano após ano, até o dia da emancipação final. Através da minha prática e da graça de Deus e dos gurus, alcancei tal estado e pude despertar a energia divina, vibrante, latente e cósmica que permanece não manifestada no corpo inteiro das pessoas. A partir desse dia, venho espalhando a sublimidade da Kriya Yoga, ensinada pelos mestres desta linhagem, por todo o mundo – não só na Índia, mas também na Alemanha, Holanda, Bélgica, França, Suíça, Canadá, EUA, Colômbia, e muitos outros países da Europa e América do Sul. Ao longo das cinquenta partes do corpo dos discípulos, eu venho despertando a energia cósmica latente. Isso é chamado de infusão de poder.

Swami Satyananda Giri,
primo de Yogananda,
Satyananda é lembrado por
sua incansável ação humanitária.
Foi o Sadhusabhapati do 
Ashram de Karar de 1952 a 1971.

Muitos ocidentais, assim como alguns indianos, têm uma visão equivocada do que é kundalini shakti. Muitas pessoas têm a ideia errada de que kundalini é como uma cobra que permanece circundando ao redor do muladhara chakra (centro inferior). Despertada, ela vai subir e morder todas as partes do corpo, causando danos inexplicáveis. Muitos livros foram escritos sobre esse retrato fantasioso da energia cósmica latente. Ninguém se atreveu a compartilhar a verdade, temendo que fosse contra noções milenares estabelecidas e escrituras antigas. Muitos sadhakas tântricos, que nunca perceberam a bem-aventurada essência da energia cósmica, escreveram muitos livros, como chacais murmurando que as uvas doces, as quais eles não podiam alcançar depois de suas tentativas e tribulações, estavam azedas.

A energia cósmica, latente em todo ser humano, cria a sensação vibratória da energia vital (prana shakti). Também é conhecida como para shakti (energia suprema) e adorada como kampilyavasini (manifestada como vibração). Por todo o corpo, as sensações vibratórias de maha shakti (grande poder) são sentidas. Sendo enfeitiçados pelas forças centrífugas extroversas de maya (delusão, ilusão e erro), os seres humanos permanecem sempre esquecidos de maha shakti; este grande poder permanece desaproveitado e não utilizado em cada indivíduo. Paramahamsa Yogananda explicou que a consciência humana é normalmente limitada pelos sentidos. Esse poder invisível, sutil e oculto não pode ser facilmente controlado. A cobra é um símbolo de poder. Como a cobra tem poder e veneno, a corrente prânica também tem a dupla capacidade de evolução espiritual e de criar confusão mundana. A energia vital prendeu os seres humanos na armadilha de maya (delusão e apego). Toda a humanidade está cozinhando no veneno mundano. Os cientistas redescobriram na teoria dos genes como as tendências da vida são transmitidas a outros e permanecem adormecidas neles. Os iogues descobriram que a forma sutil das tendências humanas permanece embutida no muladhara chakra (o centro inferior). Essas tendências são geralmente chamadas de energia não manifesta. Despertar tal energia significa introverter conscientemente a energia vital não utilizada através de todos os centros dentro da coluna, desde o muladhara até o sahasrara (no topo da cabeça). Ao subir ao longo do caminho da sushumna, do muladhara ao sahasrara, a energia vital controla as rédeas de todos os desejos mundanos. Ao atingir o mais alto estágio possível de Realização Divina, somente através da prática de Kriya Yoga, tenho tentado ajudar toda a humanidade a percorrer o caminho espiritual, instilando nos corpos dos discípulos a sensação divina e as vibrações do poder supremo (maha shakti) depois de purificar e consagrar todas as partes do corpo e chakras (centros) na coluna. Kriya Yoga é uma ciência de espiritualidade prática que deve ser aprendida diretamente com o guru preceptor.

Yogananda

Não se pode obter a Realização Divina apenas lendo escrituras e textos espirituais. A ilustração a seguir esclarecerá esse ponto. Qualquer pessoa que alugou um cofre de segurança no banco tem uma chave enquanto outra chave é mantida pelo gerente do banco. Mesmo que essa pessoa deseje abrir o cofre com sua chave, ela não pode sem a ajuda do gerente do banco. O gerente do banco primeiro abre o cofre e, em seguida, a pessoa usa sua chave para abri-lo para ver sua riqueza e ouro no interior. Da mesma forma, a prática de Kriya Yoga é a arte da disciplina espiritual que se deve dominar com o sincero companheirismo de um buscador com o guru. Guru é o mensageiro divino. A chave para abrir o cofre divino do tesouro espiritual está com guru. Se o gerente do banco não abrir o cofre, ninguém tem o poder de ver o que ele contém. Da mesma forma, a pessoa que tem o cofre, a menos que ele seja aberto, não pode ver sua própria riqueza e propriedade.

Três fatores são essenciais para a evolução espiritual de todo buscador: hereditariedade, ambiente e cultura. A hereditariedade é a própria herança do passado. O ambiente é o guru preceptor. O terceiro fator, a cultura, depende do esforço sincero do buscador. Com a hereditariedade da providência divina, o guru preceptor abrirá o cofre cinquenta por cento e os outros cinquenta por cento devem ser cultivados pelo discípulo. Pela prática da Kriya Yoga, pode-se perceber que cem por cento de divindade é inerente a todo ser humano.

Bupendranath Sanyal Mahasaya,
de barbas brancas, ao centro.
Ao lado direito, seu discípulo, autor deste livro,
Paramahamsa Hariharananda,
de barbas escuras e óculos.

Enquanto leva uma vida mundana, um ser humano pode praticar Kriya Yoga. Kri significa o que você está fazendo; ya significa a alma funcionando dentro de você. No Bhagavatam em oriá, é dito pelo Senhor Krishna: “Eu sou Aquele que faz; não há outro caminho além de Mim.” Realizando Aquele que faz, na forma de energia vital em todas as atividades, pensamentos e disposições, os seres humanos permanecem sempre ligados na consciência da alma em meio aos cuidados e tarefas familiares. Possa uma pessoa ser Shakta (adoradora da Mãe Divina), Shaiva (seguidora do Senhor Shiva), Vaishnava (aqueles que adoram o Senhor Vishnu, Shri Rama ou Senhor Krishna), Ganapatya (crente no Senhor Ganesha), Tantrik Kaulika (seguidores de sua própria tradição familiar de ritos e rituais), budista, jainista, ou pertencer a qualquer outra disciplina[2], ela pode facilmente realizar Deus ou se elevar na evolução espiritual despertando a energia cósmica na sushumna e se estabelecer no sahasrara através da prática de Kriya Yoga. Como dizem as escrituras, desha kala prapannani sarva karmani sadhayet: “Todas as atividades são realizadas de acordo com a natureza do país e do clima.” Se as sementes forem jogadas nas florestas ou em terras selvagens, sem o cultivo adequado, não haverá rendimento e os esforços serão em vão. Para obter uma boa colheita, deve-se cultivar bem a terra. Da mesma maneira, Kriya Yoga é uma técnica especial de meditação para cultivar a terra espiritual que jaz árida nos seres humanos.

Nos capítulos subsequentes, as descrições a respeito dos estágios e o processo de Kriya Yoga ajudarão a dar uma compreensão mais clara aos praticantes de Kriya Yoga iniciados e inspirarão as pessoas a trilhar este caminho real


[1] Nota à tradução brasileira (N.d.T.)

Ao longo do texto, a palavra “realizar” é usada no sentido de conceber algo vividamente como real; perceber ou experimentar um estado plenamente consciente, em relação à Deus, à unidade (Realização Divina, Realização de Deus), ou a si mesmo (Autorrealização, Realização de Si).

Assim, uma pessoa realizada é alguém que alcançou um estado pleno de consciência de si, em união com Deus.

Realizado é, ainda, alguém que se realizou, que alcançou seu objetivo ou ideal, que atingiu sua meta (ex.: Teve o que desejou, é um homem realizado).

Então, pode-se entender que mestre realizado é alguém que alcançou o ideal dentro daquilo que é ser um mestre. E, do mesmo modo, pode-se compreender que realização espiritual é alcançar o objetivo ou ideal espiritual.

[2] Como cristianismo, judaísmo, islamismo, espiritismo, religiões de matriz yorubá e de todas as outras matrizes, etc. (N.d.T.)

Postagem por ocasião dos 25 anos do ensino e prática
da Kriya Yoga de Paramahamsa Hariharananda no Brasil

Hatha Yoga & Kriya Yoga

Este é um texto de esclarecimento. 

Não a toa a técnica de Kriya Yoga de Maharishi Bhrigu e Yogeshwara Mahadeva se perde de tempos em tempos, e necessita de um Lahiri Babaji, cutucado por Babaji, para faxinar as confusões que fizemos.

Um caminho de esclarecer é este:

HATHA YOGA:

De acordo com os Sutras de Patañjali, asana (postura, posição do corpo) é uma das oito partes da Yoga, etapa preparatória para os passos seguintes que conduzem até samadhi.

Hatha Yoga (hatha literalmente significa força) é um sistema que foca no aspecto mais físico da yoga. Seu foco principal são os asanas.
Uma prática de Hatha Yoga é quase na totalidade posturas, com um pouquinho de meditação rápida no final. Às vezes, nem isso, e só um relaxamento.

Por razões diversas, diferentes formas de praticar Hatha Yoga, receberam diferentes nomes, como Ashtanga Yoga ou Vinyasa Yoga. Ashtanga talvez seja uma das denominações que mais induz a confusão, já que emprega a terminologia de Patanjali de forma equivocada. Como se, por exemplo, eu pegasse uma pétala de uma flor e considerasse, essa pétala, a flor inteira.

O significado correto de Ashtanga Yoga é Oito Partes da Yoga, que são:

  1. Yamas
  2. Nyama
  3. Asana (Que é a parte Hatha)
  4. Pranayama
  5. Pratyahara
  6. Dharana
  7. Dhyana
  8. Samadhi

Mas Pattabhi Jois (1915-2009) adotou o nome Ashtanga para seu sistema de Hatha, aumentando a confusão.

Observe e reflita sobre as datas de nascimento e morte dos professores que estou listando neste texto. E pondere que os Sutras de Patanjali foram escritos milênios atrás (talvez algo entre 200 A.C. e 400 D.C.)

KRIYA YOGA:

Kriya Yoga é o nome que Lahiri Mahasaya (1828-1895) adotou para chamar a TOTALIDADE da Yoga que se propôs a ensinar. Poderia ter escolhido outro nome qualquer, mas por razões que posso detalhar em outro momento, escolheu este. A Kriya Yoga de Lahiri contempla as oito partes da Yoga. Poderia até se dizer que Kriya Yoga é Ashtanga Yoga (segundo Patanjali e não Pattabhi Jois)

De quando Lahiri começou a ensinar, até hoje, foram surgindo variações e deturpações da Kriya Yoga. Em alguns lugares praticamente se abandonou a yoga total e os asanas, e sobrou um pranayama meio disperso, combinado com orações aos Gurus. Para algumas pessoas Kriya Yoga virou rezar para os Gurus. Na minha visão, quem faz isso, está chamando de Kriya Yoga algo que não é mais isso de fato.

Paramahamsa Hariharananda (1907-2002) foi aluno direto de dois alunos diretos de Lahiri Mahasaya, e sua proposta é ensinar a Kriya Yoga original, que INCLUI asanas. Na Kriya Yoga de Hariharananda ESTÁ incluída a parte física (Hatha) em diversos momentos, sendo dois os mais destacados:
1- A INCLINAÇÃO
Se um praticante, iniciado corretamente na Kriya Yoga de Lahiri Baba, e difundida por Hariharananda, fizer com atenção a INCLINAÇÃO, já terá feito todo o alongamento necessário para abrir a prática e seguir em frente.

2- O MAHAMUDRA
Se fizer o Mahamudra e procurar APERFEIÇOÁ-LO, melhorando gradativamente os alongamentos, encaixes, pranayama, mahabandha, e consciência Kriya, terá feito a melhor Hatha Yoga possível, para efeito de atingir samadhi. O Mahamudra ensinado por Hariharananda, em suas próprias palavras, é o encapsulamento da Hatha Yoga. Realiza todas as funções necessárias para liberação do sistema nervoso central e periférico, equilíbrio eletromagnético do sistema ida-pingala e abertura da sushumna. Entre outras coisas.

Isto é o que aprendi e espero estar transmitindo corretamente os ensinos da linhagem, para benefício de todas as pessoas que buscam a prática.

HATHA YOGA x KRIYA YOGA

Se consegui ser claro acima, não existe contradição entre as duas coisas. Mais pode ser dito nas aulas e práticas em grupo, e perguntado a outros yogacharyas.

Mas dizer “vamos fazer Hatha Yoga antes da prática de Kriya Yoga” para melhorar a Kriya Yoga, me parece algum tipo de mal entendido. Da mesma forma, “vamos fazer alongamento antes da Kriya Yoga”.
Da maneira como estudo e pratico, todo o alongamento, e toda a hatha que você necessita, já estão dentro da prática CORRETA de Kriya Yoga.

O que não significa que eu seja contrário a que se pratique o que se convencionou chamar de Hatha Yoga. Eu mesmo estudei a Ashtanga de Pattabhi Jois, e mais Senguei Ngaro, Kathakali e Natação Zen, e até hoje pratico regularmente alguns dos exercícios preparatórios dessas práticas. Além de correr e de ginástica básica. Possivelmente essas práticas anteriores inclusive facilitaram meu desenvolvimento quando cheguei na Kriya Yoga, sim. Mas não faço essas práticas “grudadas” à minha Kriya Yoga.

Do que entendo, humildemente, não está faltando algo na Kriya Yoga de Lahiri e Hariharananda, que precisa ser complementado com Hatha Yoga ou exercícios de alongamento.

E, em tempo: YOGA é MEDITAÇÂO.
A prática COMPLETA de YOGA, incluindo todas as OITO PARTES, é MEDITAÇÃO.
Muitos traduzem apressadamente a palavra DHYANA (veja lá em cima, parte 7 no Yoga Sutra) como MEDITAÇÃO. Como se meditação fosse uma parte da Yoga, uma fração. Mas Dhyana é um estado de devoção amorosa que acontece naturalmente se você tiver preparado a si mesmo nas etapas anteriores. Surge um vislumbre desabrochado da percepção da Divindade. E isso se chama DHYANA, que é a antecâmara do SAMADHI.

KRIYA YOGA (pra valer) é simplesmente YOGA.

Com Amor,
Yogacharya Céu

5 de Agosto de 2020

Nota complementar : O assunto é muito amplo e, naturalmente, toda tentativa de simplificar, para entendimento de leigos e iniciantes, pode incorrer em erros grosseiros. Há milênios que, determinar o que é a Verdadeira Yoga, é um debate difícil. E o tempo muitas vezes serve apenas para acrescentar mais camadas de incompreensão e deturpações.
Nem mesmo entrei neste texto na discussão do que é (ou deveria ser) Raja Yoga, Karma Yoga, as 18 Yogas da Gita, etc, etc. O foco deste post é exclusivamente a questão do papel dos asanas (posturas físicas) na Yoga. E neste sentido, o que prevalece no entendimento mais amplo da maior parte das pessoas (professores incluso) é que Hatha Yoga é sinônimo de posturas físicas.
O texto básico de referência da Hatha Yoga é bastante recente, se comparado com os Sutras de Patanjali. E NÃO é parte dos Vedas. Trata-se do Hatha Yoga Pradipika, do século XV depois de Cristo. Busca-se ali a Yoga integral, mas já se aponta um caminho mais físico. A concepção contemporânea de Hatha Yoga, como um tipo de ginástica indiana, é consequência do trabalho de popularização de Tirumalai Krishnamacharya (1888-1989). Há muitas escolas e professores empenhados em resgatar a Hatha Yoga do Pradipika, como por exemplo o trabalho meticuloso da escola de Swami Sivananda (1887-1963). Ainda assim, o que prevalece nessas abordagens, é a prática de asanas. 
O objetivo deste texto, dirigido aos alunos de Kriya Yoga, é documentar que o que aprendi em minha formação, com Baba Hariharananda e diferentes yogacharyas, e com minha própria prática, é que a técnica completa da Kriya autêntica inclui asanas suficientes, para seus objetivos de integração da consciência. Espiritual, Astral e Física. É Yoga. E todo o processo é a Meditação. 
Meditação não é um pedaço da Yoga, mas a própria Yoga, se aprendida corretamente.
(10 de Agosto 2020|)

Meditação diária e no dia do Equinócio


Escrevo este post no dia 21 de Março de 2017. É dia do Equinócio. No Hemisfério Norte, Equinócio da Primavera e no Hemisfério Sul, do Outono.

É considerado pelos yogues um dos dias mais favoráveis do ano para a prática da meditação.  Afirma-se que nesta data o magnetismo de todo o campo físico, do planeta e de todos os seus seres, está em equilíbrio. Como os praticantes de Kriya Yoga sabem, estando os campos magnéticos equilibrados, estão também equilibrados os canais Ida e Pingala, e assim facilitada a abertura da Sushumna.
Mais um bom motivo hoje para você praticar Kriya Yoga e mesmo para encontrar com seu grupo de meditação, para o benefício mais intenso da prática coletiva.

Mas lembre-se que ainda mais importante é meditar diariamente.
Os yogues já conheciam há milhares de anos atrás, o que hoje a ciência moderna chama de memórias de curto e longo prazo, e dos ciclos regulatórios do sono. Mas além do que estuda a ciência moderna, os antigos rishis já estudavam profundamente o fenômeno da consciência e sua conexão com os campos imateriais.
Nossos cérebros tem ciclos que são pontuados pelo sono.
A cada "sono" completa-se um ciclo e parte da memória da mente conhecida como "manas" é descartada, limpa.
Igualmente, se for a mente de um praticante de meditação, integra-se a cada ciclo uma nova camada do "buddhi". Isso se naquele dia, em algum momento anterior àquele sono, o praticante tiver meditado.
Essa é uma das razões porque se recomenda cientificamente a meditação diária. Porque cada dia é uma oportunidade de integrar uma camada da realização consciente, um passo em direção ao samadhi. 


Baba diz: - Tempo gasto em meditação é tempo ganho.

Um dos outros motivos apontados é que o ciclo do dia é o ciclo energético do nosso sistema solar, nossa porta de conexão com todo o Universo. Assim, meditando diariamente estamos nos sincronizando com todas as forças materiais e imateriais que regulam nossa consciência da existência da força cósmica e portando da própria vida.

Aproveite bem cada um de seus dias. Medite diariamente. Permita-se expressar mais e mais o amor e a paz que são a razão de sua existência.

(Yogacharya Céu, NYC, 21 março 2017)

Deus é existência e não existência (ou, por que o professor Pondé diz que virou ateu)



Em geral as discussões da existência ou não de Deus ou deus são muito aborrecidas.


Na maioria das vezes, tanto ateus como crentes demonstram que examinaram muito pouco a questão e já defendem apaixonadamente suas crenças. Não acreditar em Deus também é apenas uma crença: Crer que não existe.


Hoje assisti um vídeo do professor brasileiro Luiz Felipe Pondé, e gostei bastante. Ele explica suas razões em porque se tornou ateu de uma forma muito boa. Repare bem: Ele não diz “porque não acredita em Deus”, mas “porque se tornou ateu”. Essa diferença já demonstra bastante lucidez. O link para o vídeo no YouTube é este:



Bem, eu gostei muito, mas discordo e resolvi escrever pra ele no espaço reservado para os comentários. Não sei se ele irá jamais ler, mas publico aqui, para a consideração de quem acompanha este blog. Procurei resumir ao máximo. Seja como for, não importa o numero de palavras, pois palavras não bastam para atingir essa realização transcendental:


Professor, gosto bastante da sua posição, ainda que discordando.
Toda a sua premissa está baseada na condição de percepção linear do tempo. O que é absolutamente comum em quase todas as argumentações pró e contra.
Sugiro que examine o conceito Védico de Tantra, também adotado por alguns budistas. E que poderia ser entendido como um dos significados de "Reino de Deus", que teria sido mencionado por Jesus.
Deus é existência e não existência. Igualmente existe e não existe. É realizado, e não entendido.
Uma vez realizado, percebe-se toda a feiúra e injustiça do mundo de uma outra forma, em que essa feiúra e injustiça deixam de existir. Tat Sat. É o que É.
Esse estado não é percebido pela mente mundana, mas pode ser atingido através da integração da mente com a essência viva, que pode acontecer a qualquer momento. Acontecendo, a percepção de momento é dissolvida. É chamado em sânscrito de Samadhi. Existem diversos níveis de samadhi. Uma vez que você consiga ter ao menos o nível mais elementar, não se libertará completamente, mas se libertará da necessidade de permanecer dialeticamente discutindo se Deus existe ou não. Começará a desconfiar que não é essa a questão.
Existem técnicas para induzir o samadhi. Dos mais diversos tipos e em culturas as mais diversas. Todas partilham no entanto, em comum, do entendimento do pensamento como um fenômeno do corpo. Assim, alterações do metabolismo também alteram os pensamentos e o entendimento do Real.
Parabéns pelo trabalho equilibrado e permanentemente indagador. Uma luz, certamente. Abraços.  



Yogacharya Céu
New York City, 16 de Fevereiro de 2017

Pra lá de Manograahya


Por melhor ou mais elevado que seja um pensamento ou uma ideia, ainda é apenas isto, um fenômeno da mente.
Manograahya é uma palavra sânscrita que significa "aquilo que pode ser percebido pela mente". 
Os Puranas dizem que está em ignorância mesmo aquele que reverencia o Amor em sua expressão mais sublime, mas que acredita encontrar através dessa reverência algo que pode ser apreendido pela mente.

Em consciência samaadhi estamos além das ideias e pensamentos. Há consciência de paz, luminosidade e compaixão. Mas não há explicação. 

A expressão poética é a forma humana de linguagem que mais se aproxima dessa consciência inefável, porque ao invés de buscar lógica, expressa o assombro da existência. Como nesta canção do compositor Nando Reis:

Segundo Sol, de Nando Reis
Quando o segundo sol chegar, para realinhar as órbitas dos planetas. Derrubando com o assombro exemplar, o que os astrônomos diriam se tratar de um outro cometa
Não digo que não me surpreendi. Antes que eu visse, você disse e eu não pude acreditar.
Mas você pode ter certeza de que seu telefone irá tocar em sua nova casa, que abriga agora a trilha incluída nessa minha conversão
Eu só queria te contar, que eu fui lá fora e vi dois sóis num dia e a vida que ardia sem explicação. Não tem explicação.


Yogacharya Céu
São Paulo, 1 de Maio de 2014

Samadhi


No fundo, entretanto, somos uno com o mundo, muito mais do que estamos acostumados a pensar: sua essência íntima é nossa vontade; seu fenômeno é nossa representação. Para quem pudesse ter clara consciência desse ser-uno, desapareceria a diferença entre a persistência do mundo externo e, depois que se está morto, a própria persistência após a morte.

Arthur Schopenhauer
(Metafísica do Amor, Metafísica da Morte, trad.: Jair Barboza, São Paulo: Martins Fontes, 2000, pág.100)

Swami Sree Yukteshwar
em uma das formas de Jyoti Yoga do Kriya Yoga,
através de Shambhavi Mudra.

Agradecimentos à Cintia Duarte Mamaji

Lua Cheia, Vesak e Baba



27 de Maio de 1907 foi noite de Lua Cheia. Foi também o dia em que nasceu Rabindranath Bhattacharya, no pequeno vilarejo de Habibpur, às marges do rio Ganges, distrito de Nadia, no estado indiano de Bengala Ocidental, a 65 km de Calcutá.

Em 1932, com 25 anos, Rabindranath é iniciado em Kriya Yoga pelo seu mestre Swami Sree Yukteshwar Giri, com quem passará a viver no Ashram de Karar. Três anos depois recebe a iniciação no Segundo Kriya de seu outro mestre (e também discípulo de Yukteshwar), Paramahansa Yogananda. 
Torna-se monge, recebendo o nome Brahmacharya Robinarayan em 1938. Recebe o Terceiro Kriya de Swami Satyananda Giri, aos 34 anos. No perído de 1943 a 1945 recebe os Quarto, Quinto e Sexto Kriyas de Sree Bhupendranath Sanyal (que assim como Yukteshwar era discípulo direto do primeiro mestre da linhagem, Lahiri Mahasaya).

Em 1948, aos 41 anos, Brahmacharya Robinarayan atinge o Nirvikalpa Samadhi, o estado iogue de mais elevada consciência. 

Aos 52 anos toma o voto formal monástico de Shankaracharya e passa a se chamar Hariharananda Giri. Sua destacada expressão lhe vale o título de Paramahansa, que ele próprio não usava. Torna-se mais conhecido entre seus estudantes simplesmente como Baba.
Em 1971 torna-se o Sadhusabhapati (espécie de presidente) do Ashram de Karar. 
A partir de 1974 inicia suas viagens ao Ocidente. Na América do Sul, chega à Colombia. Teria dito que não havia pessoas aptas a receber sua iniciação em Kriya Yoga no Brasil naquela época, enviando seus Yogacharyas para iniciações apenas em 1999. 
Deixa o corpo a 3 de Dezembro de 2002, sendo considerado este seu Mahasamadhi.


Vaiśākha, em sânscrito, é uma das doze luas cheias que marcam os doze meses do Calendário Lunar. Corresponde à quinta ou sexta Lua Cheia e no Calendário Solar pode ocorrer entre Abril e Maio, eventualmente no começo de Junho.
Veśāka, variante também sânscrita, quer dizer alguém ou algo que entra. 

Essa Lua Cheia, conhecida como Lua de Vesak, é comemorada triplamente como a data abençoada do nascimento, da iluminação e do mahasamadhi do Buddha Gautama, sendo muito celebrada entre os budistas. No entanto, talvez por ser uma lua cheia que ocorre em um período climático muito agradável em todo o mundo (primavera no Norte e outono no Sul), ou por alguma razão que a mente comum não seja capaz de explicar, a Lua de Vesak chama a atenção por sua beleza a todas as pessoas.

A prática de Kriya Yoga não é sectária. Qualquer pessoa, de qualquer religião, ou mesmo ateus e agnósticos podem se beneficiar de sua prática. Não somos particularmente budistas, como alguns acham às vezes por me ver, careca e sentado para meditar. Mas interessantemente, este destacado Guru da Kriya, Paramahansa Hariharananda, veio ao mundo na Lua de Vesak. 


Assim, na data de hoje, 25 de Maio de 2013, quando escrevo estas linhas, não sendo ainda a data do aniversário de Baba pelo Calendário Gregoriano, que comemora apenas no dia 27, é no entanto a data lunar do aniversário. As antigas escrituras védicas citam que a Lua é quem sinaliza a qualidade da entrada e do abandono da experiência da vida no que chamamos de mundo material. E portanto, por esse princípio, hoje é um dia a observar como da entrada do Guru, da Consciência Elevada, da Guia Espiritual, no magnético mundo material. Momento de chamar e receber resposta, instrução e orientação. Auspicioso para a meditação.

Mas todos os dias e noites são. E todos os momentos também.

Com Amor,


Yogacharya Céu D´Ellia



Para uma cronologia mais detalhada da linha do tempo de Paramahansa Hariharananda clique e visite a página ao lado.


Nabhi Kriya

O livro INFINITO NO FINITO está dividido em três partes, cada uma delas de um autor diferente. 
A primeira parte, que dá o título do livro, é um relato de Rajarshi Raghabananda sobre sua experiência com o mestre realizado Paramahansa Hariharananda e sua vivência em Samadhi. Rajarshi é o único discípulo de Baba Hariharananda que atingiu o estado mais elevado de samadhi por Kriya Yoga, e sua experiência é uma referência única para quem realiza essa prática.
A segunda parte do livro é de autoria do próprio Paramahansa Hariharananda. São instruções para o Samadhi, com destaque a uma detalhada explicação sobre o Nabhi Kriya. 
A terceira parte do livro é um minucioso glossário escrito por Sarveshwarananda Giri, aluno de Hariharananda. São 27 páginas de termos traduzidos e explicados.





IMPORTANTE: 
Se você ler INFINITO NO FINITO e atentar para o estudo de Nabhi Kriya, vai encontrar a localização do Vishnu Granthi: Formado pelo Anahata Chakra (Centro do Coração) , lótus de doze pétalas, e a metade superior do Manipura Chakra (ou Nabhi Chakra, Centro da Digestão), soma dezessete pétalas. 
O Vishnu Granthi começa no centro do umbigo e vai até a região ABAIXO da pituitária
Mas não é assim que está escrito em outro livro, a página 110 da edição em português do livro KRIYA YOGA, do próprio Paramahansa Hariharananda, pela Editora Lótus do Saber. Mas é um erro de tradução. Na edição em inglês do mesmo livro, texto original do próprio Baba, confirma-se a informação de INFINITO NO FINITO. Que afinal, também foi escrito pelo Baba.


Com Amor,
Céu D'Ellia