Vaijanika Kriya Yoga Paddhati (O Método Científico da Kriya Yoga), capítulo 1: Princípios da Kriya Yoga

Por Paramahamsa Hariharananda

Capa original de
de Vaijnanika Kriya Yoga Paddhati,
escrito no idioma oriá.



Livro original escrito em oriá, Vaijnanika Kriya Yoga Paddhati
Traduzido para o português, a partir da tradução em inglês, por Graziella Schettino Valente, com revisão de Yogacharya Céu.
São Paulo, Brasil, 2022


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Princípios da Kriya Yoga

Kriya Yoga é uma bela técnica de meditação, que precisa ser aprendida com um professor, tanto sua teoria quanto sua prática. Esse caminho utiliza experiência direta, semelhante a aprendizagem por observação científica. Se aprendida com qualquer um que não seja uma pessoa plenamente realizada[1] em Kriya ou um iogue altamente avançado, a prática não dará resultados. Aqueles que não atingiram o apogeu da Realização de Si, ou provaram o apreciado estágio – um bem-aventurado estado de amor e devoção – irão certamente ganhar má reputação se eles ensinarem outros, e as pessoas que aprenderem com eles não irão se elevar no caminho espiritual da Realização de Si. Está escrito na Bíblia (Mateus 15:14): “Da mesma maneira que uma pessoa cega conduz outra pessoa cega e ambos caem na valeta, também um buscador ignorante não pode ser um farol de luz para outros.”

A palavra “yoga” deriva da raiz yuj, que significa estar unido ou permanecer no estado de unidade. Em outras palavras, através de técnicas científicas, o eu encarnado (jiva) está unido ao Eu universal (Brahman). Um iogue pode ser alguém que tenha responsabilidade pelo sustento ou cuidado da família ou que seja um monge renunciado; em ambos os casos, essa pessoa permanece sempre unida a Deus praticando métodos ióguicos. Essa realização da unidade entre a alma individual e o Eu Supremo é ioga.

Yogiraj Shyamacharan Lahiri,
mais conhecido como Lahiri Mahasaya

Na era moderna, Yogiraj Shyamacharan Lahiri reviveu o antigo conhecimento do controle da respiração sutil, uma técnica científica conhecida como Kriya Yoga. O Bhagavad Gita (2:50) diz, yogah karmasu kaushalam: “Ioga é a maneira adequada de alcançar ação correta”. É também uma técnica ou método para a Realização Divina. Kriya Yoga é uma técnica que pode ser praticada para atingir o bem-aventurado estágio de samadhi nesta mesma vida. Esta é a verdadeira adoração a Deus. O Yoga Sutra de Patanjali (Sadhana Pada, sutra 1) diz, tapah svadhyaya Ishvara pranidhanani kriya yogah: “Kriya Yoga é a arte da oração interior com controle da respiração, autoestudo e puro amor pelo Divino.”

Na opinião sagrada de Shri Shyamacharan, Kriya Yoga é uma combinação de diferentes técnicas, como pranayama, Khechari mudra, Jyoti mudra e ouvir o som divino, ver a luz divina e assim por diante. Todas essas técnicas são apenas maneiras para alcançar o estágio de samadhi.

Paramahamsa Yoganandaji, um dos discípulos de Swami Shriyukteshwarji que se tornou um mestre realizado na linhagem de Kriya Yoga, afirmou que a espiritualidade não pode ser comprada no mercado. Deve ser conquistada com muito trabalho e esforço próprio. No entanto, muitas pessoas estavam aprendendo e praticando Kriya Yoga principalmente pela leitura dos livros dele. Uma compreensão geral a respeito da filosofia de Kriya Yoga pode ser obtida lendo livros, mas, a menos que seja aprendida adequadamente com um mestre Autorrealizado ou um estudante avançado designado, não alcançará o resultado desejado. Como apontado novamente por Paramahamsa Yoganandaji, um mestre Autorrealizado acende a consciência espiritual no coração de um discípulo sincero. O guru preceptor é o mensageiro de Deus. O fluxo imperecível e perene da tradição do guru nunca foi interrompido e continua a fluir ininterruptamente ainda hoje. 

Yogananda sentado ao lado de Sree Yukteshwar,
no Ashram de Karar, na cidade de Puri
Orissa (Odisha), Índia

Sentado próximo aos gurus da tradição de Kriya Yoga – Swami Shriyukteshwar Giri, Sanyal Mahasaya, Paramahamsa Yoganandaji e Swami Satyanandaji – eu venho praticando Kriya Yoga em uma atmosfera de solidão, reclusão e silêncio desde 1932. Como resultado dessa prática em reclusão e silêncio, eu aprendi não apenas como abrir as pétalas de lótus dos seis centros para conduzir os buscadores à Realização Divina, mas também realizei que Kriya Yoga é a essência de todas as religiões. Os renunciantes convictos, brahmacharis e sannyasins da Índia, mergulhando além do véu da natureza externa, realizaram a imanente sublime verdade desta natureza. Kriya Yoga não é meramente um discurso filosófico ou intelectual. Na realidade, é o estágio da percepção não sensorial, de completa fusão e união com Deus. Pela graça dos gurus da linhagem de Kriya Yoga, alcancei o estágio de nirvikalpa samadhi e gostaria de compartilhar uma parte da minha essência realizada, em forma de livro, para o benefício das pessoas do mundo todo.

O corpo é muito temporal. Não sei se algum buscador antes de mim realizou a mesma essência que encontrei praticando Kriya Yoga. A experiência e a realização de cada pessoa são únicas. Também não sei se durante a iniciação outras pessoas podem instilar vibração divina, luz divina e som divino da cabeça aos pés em seus discípulos. Depois de atingir o nirvikalpa samadhi em 1948 e Paramahamsa Yoganandaji solicitar que eu ensinasse Kriya Yoga, venho infundindo a vibração divina em discípulos do muladhara chakra (centro inferior) ao sahasrara chakra (fontanela) e até mesmo ao brahmaloka (céu alto no espaço).  Até atingir o nirvikalpa samadhi, eu não conhecia essa técnica de infundir o poder divino. Renunciando a tudo, pratiquei esta técnica dia após dia, mês após mês, ano após ano, até o dia da emancipação final. Através da minha prática e da graça de Deus e dos gurus, alcancei tal estado e pude despertar a energia divina, vibrante, latente e cósmica que permanece não manifestada no corpo inteiro das pessoas. A partir desse dia, venho espalhando a sublimidade da Kriya Yoga, ensinada pelos mestres desta linhagem, por todo o mundo – não só na Índia, mas também na Alemanha, Holanda, Bélgica, França, Suíça, Canadá, EUA, Colômbia, e muitos outros países da Europa e América do Sul. Ao longo das cinquenta partes do corpo dos discípulos, eu venho despertando a energia cósmica latente. Isso é chamado de infusão de poder.

Swami Satyananda Giri,
primo de Yogananda,
Satyananda é lembrado por
sua incansável ação humanitária.
Foi o Sadhusabhapati do 
Ashram de Karar de 1952 a 1971.

Muitos ocidentais, assim como alguns indianos, têm uma visão equivocada do que é kundalini shakti. Muitas pessoas têm a ideia errada de que kundalini é como uma cobra que permanece circundando ao redor do muladhara chakra (centro inferior). Despertada, ela vai subir e morder todas as partes do corpo, causando danos inexplicáveis. Muitos livros foram escritos sobre esse retrato fantasioso da energia cósmica latente. Ninguém se atreveu a compartilhar a verdade, temendo que fosse contra noções milenares estabelecidas e escrituras antigas. Muitos sadhakas tântricos, que nunca perceberam a bem-aventurada essência da energia cósmica, escreveram muitos livros, como chacais murmurando que as uvas doces, as quais eles não podiam alcançar depois de suas tentativas e tribulações, estavam azedas.

A energia cósmica, latente em todo ser humano, cria a sensação vibratória da energia vital (prana shakti). Também é conhecida como para shakti (energia suprema) e adorada como kampilyavasini (manifestada como vibração). Por todo o corpo, as sensações vibratórias de maha shakti (grande poder) são sentidas. Sendo enfeitiçados pelas forças centrífugas extroversas de maya (delusão, ilusão e erro), os seres humanos permanecem sempre esquecidos de maha shakti; este grande poder permanece desaproveitado e não utilizado em cada indivíduo. Paramahamsa Yogananda explicou que a consciência humana é normalmente limitada pelos sentidos. Esse poder invisível, sutil e oculto não pode ser facilmente controlado. A cobra é um símbolo de poder. Como a cobra tem poder e veneno, a corrente prânica também tem a dupla capacidade de evolução espiritual e de criar confusão mundana. A energia vital prendeu os seres humanos na armadilha de maya (delusão e apego). Toda a humanidade está cozinhando no veneno mundano. Os cientistas redescobriram na teoria dos genes como as tendências da vida são transmitidas a outros e permanecem adormecidas neles. Os iogues descobriram que a forma sutil das tendências humanas permanece embutida no muladhara chakra (o centro inferior). Essas tendências são geralmente chamadas de energia não manifesta. Despertar tal energia significa introverter conscientemente a energia vital não utilizada através de todos os centros dentro da coluna, desde o muladhara até o sahasrara (no topo da cabeça). Ao subir ao longo do caminho da sushumna, do muladhara ao sahasrara, a energia vital controla as rédeas de todos os desejos mundanos. Ao atingir o mais alto estágio possível de Realização Divina, somente através da prática de Kriya Yoga, tenho tentado ajudar toda a humanidade a percorrer o caminho espiritual, instilando nos corpos dos discípulos a sensação divina e as vibrações do poder supremo (maha shakti) depois de purificar e consagrar todas as partes do corpo e chakras (centros) na coluna. Kriya Yoga é uma ciência de espiritualidade prática que deve ser aprendida diretamente com o guru preceptor.

Yogananda

Não se pode obter a Realização Divina apenas lendo escrituras e textos espirituais. A ilustração a seguir esclarecerá esse ponto. Qualquer pessoa que alugou um cofre de segurança no banco tem uma chave enquanto outra chave é mantida pelo gerente do banco. Mesmo que essa pessoa deseje abrir o cofre com sua chave, ela não pode sem a ajuda do gerente do banco. O gerente do banco primeiro abre o cofre e, em seguida, a pessoa usa sua chave para abri-lo para ver sua riqueza e ouro no interior. Da mesma forma, a prática de Kriya Yoga é a arte da disciplina espiritual que se deve dominar com o sincero companheirismo de um buscador com o guru. Guru é o mensageiro divino. A chave para abrir o cofre divino do tesouro espiritual está com guru. Se o gerente do banco não abrir o cofre, ninguém tem o poder de ver o que ele contém. Da mesma forma, a pessoa que tem o cofre, a menos que ele seja aberto, não pode ver sua própria riqueza e propriedade.

Três fatores são essenciais para a evolução espiritual de todo buscador: hereditariedade, ambiente e cultura. A hereditariedade é a própria herança do passado. O ambiente é o guru preceptor. O terceiro fator, a cultura, depende do esforço sincero do buscador. Com a hereditariedade da providência divina, o guru preceptor abrirá o cofre cinquenta por cento e os outros cinquenta por cento devem ser cultivados pelo discípulo. Pela prática da Kriya Yoga, pode-se perceber que cem por cento de divindade é inerente a todo ser humano.

Bupendranath Sanyal Mahasaya,
de barbas brancas, ao centro.
Ao lado direito, seu discípulo, autor deste livro,
Paramahamsa Hariharananda,
de barbas escuras e óculos.

Enquanto leva uma vida mundana, um ser humano pode praticar Kriya Yoga. Kri significa o que você está fazendo; ya significa a alma funcionando dentro de você. No Bhagavatam em oriá, é dito pelo Senhor Krishna: “Eu sou Aquele que faz; não há outro caminho além de Mim.” Realizando Aquele que faz, na forma de energia vital em todas as atividades, pensamentos e disposições, os seres humanos permanecem sempre ligados na consciência da alma em meio aos cuidados e tarefas familiares. Possa uma pessoa ser Shakta (adoradora da Mãe Divina), Shaiva (seguidora do Senhor Shiva), Vaishnava (aqueles que adoram o Senhor Vishnu, Shri Rama ou Senhor Krishna), Ganapatya (crente no Senhor Ganesha), Tantrik Kaulika (seguidores de sua própria tradição familiar de ritos e rituais), budista, jainista, ou pertencer a qualquer outra disciplina[2], ela pode facilmente realizar Deus ou se elevar na evolução espiritual despertando a energia cósmica na sushumna e se estabelecer no sahasrara através da prática de Kriya Yoga. Como dizem as escrituras, desha kala prapannani sarva karmani sadhayet: “Todas as atividades são realizadas de acordo com a natureza do país e do clima.” Se as sementes forem jogadas nas florestas ou em terras selvagens, sem o cultivo adequado, não haverá rendimento e os esforços serão em vão. Para obter uma boa colheita, deve-se cultivar bem a terra. Da mesma maneira, Kriya Yoga é uma técnica especial de meditação para cultivar a terra espiritual que jaz árida nos seres humanos.

Nos capítulos subsequentes, as descrições a respeito dos estágios e o processo de Kriya Yoga ajudarão a dar uma compreensão mais clara aos praticantes de Kriya Yoga iniciados e inspirarão as pessoas a trilhar este caminho real


[1] Nota à tradução brasileira (N.d.T.)

Ao longo do texto, a palavra “realizar” é usada no sentido de conceber algo vividamente como real; perceber ou experimentar um estado plenamente consciente, em relação à Deus, à unidade (Realização Divina, Realização de Deus), ou a si mesmo (Autorrealização, Realização de Si).

Assim, uma pessoa realizada é alguém que alcançou um estado pleno de consciência de si, em união com Deus.

Realizado é, ainda, alguém que se realizou, que alcançou seu objetivo ou ideal, que atingiu sua meta (ex.: Teve o que desejou, é um homem realizado).

Então, pode-se entender que mestre realizado é alguém que alcançou o ideal dentro daquilo que é ser um mestre. E, do mesmo modo, pode-se compreender que realização espiritual é alcançar o objetivo ou ideal espiritual.

[2] Como cristianismo, judaísmo, islamismo, espiritismo, religiões de matriz yorubá e de todas as outras matrizes, etc. (N.d.T.)

Postagem por ocasião dos 25 anos do ensino e prática
da Kriya Yoga de Paramahamsa Hariharananda no Brasil

Desarmonía entre las personas

Declarándose muy triste y confundida, debido a movimientos de desarmonía en la sangha,
una kriyayoguini me pidió su opinión sobre lo que estaba pasando

Queriendo dar una respuesta rápida, le respondí: - Debo tener mucho cuidado para darte una buena respuesta. Primero meditaré y oraré. Pero no te preocupes, la vibración divina está haciendo lo suyo. La paciencia es el camino de la compasión.

Y me dediqué a meditar y orar, para encontrar una buena respuesta.

Una sangha es una comunidad de buscadores de la verdad, buscadores de liberación espiritual.

Bueno, la verdad no se oculta. Por el contrario, está todo el tiempo se haciendo estallar desnuda ante nosotros y dentro de nuestra conciencia profunda. Si no percibimos la verdad, no es por ella, sino por nuestro propio rechazo a ella. Entonces, podemos preguntarnos: - ¿Por qué no puedo ver la verdad? ¿Qué no quiero ver de mí mismo? ¿Qué me niego a aceptar de mí mismo? Podemos pedir a Dios: - Dame claridad de discernimiento para que sepa lo que me impide conocer la verdad.

Aquellos que realmente buscan la liberación espiritual no se victimizan a sí mismos. No señalan con el dedo culpando a otros. Porque la liberación espiritual es asumir la plena responsabilidad de ti mismo, desde lo más profundo de tu propia alma.

Entonces, a pesar de las enormes ganas de participar en el juego del chisme y el control de las narrativas, no lo hacemos. Porque aquellos que realmente buscan la verdad, la encontrarán. Y los que buscan poder en la garganta, allí se quedarán, morando en sus propias historias engañadas, en luchas de poder, en juegos políticos. Las luchas de poder narcisistas no solo destruyen países, destruyen familias, parejas, amistades, sanghas.

Lo que necesito es preguntarme: ¿Qué quiero? ¿Libertad espiritual? ¿Estoy participando de una sangha porque quiero la validación de mi narcisismo o porque quiero la verdad y la liberación?

Baba nos dice que debemos tener cuidado con nuestra lengua, pero también debemos tener cuidado con nuestros oídos. Pueden ser nuestros enemigos.

Jesús dice: Y ¿por qué miras la mota que está en el ojo de tu hermano, y no echas de ver la viga que está en tu ojo?

Por eso creo que es mejor ser conscientes de nosotros mismos, tratar de quitar lo que nos impide ver, y no alimentar la discordia ni por la lengua ni por los oídos. Si lo que queremos es liberación espiritual. Si la razón por la que estamos en una sangha es buscar la verdad.

Entonces, después de meditar. después de orar sobre todo lo que escribí anteriormente y mucho más, finalmente encontré la respuesta a mi querida amiga kriyayogini:

- No te preocupes, la vibración divina está haciendo lo suyo. La paciencia es el camino de la compasión.

In Tempo: Las desarmonías también me entristecen mucho. No estoy hecho de arcilla.

Con Amor
Y Céu