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A Ressurreição dos Filhos do Brâmane

 

26 de agosto de 2021 contei e estudamos um pouco a história do Bhagavatan Purana X, "A Ressurreição dos Filhos do Brâmane" (ou dos Brâmanes).

A aluna do grupo de Meditação Básica, Vitória Leopoldina, fez umas perguntas bem interessantes, depois da aula, e estou postando aqui, para quem se interessar. Quem quiser conhecer a história, procure no Bhagavatan.


1- Céu, sobre a história de ontem, fiquei examinando interessante isso de eles terem que atravessar toda a existência para encontrar a si mesmos e isso do sete, sete mundos, sete oceanos... Interessante esse número, são sete dias o nosso ciclo da lua e da semana, digo parece uma metáfora de atravessarmos o nosso cotidiano, a nossa própria existência para encontrar esse nosso eu humano e supremo em outro nível. é isso?

Sim, isso mesmo. Sete é um número que representa todos os níveis possíveis da existência humana. É quase um arquétipo, porque aparece com esse significado em diversas culturas. No Budismo são os sete fatores da iluminação. No Islão o peregrino dá sete voltas em torno da Kaaba. Para os Sufi são sete os pilares da sabedoria. São sete as estrelas principais das Plêiades. No Antigo Testamento, sete sacerdotes tocando sete trombetas deram sete voltas em torno de Jericó e no sétimo dia derrubaram suas muralhas. São sete os pedidos do Pai Nosso. Maria Madalena (Lucas 8:2) se purifica ao expelir sete demônios. No Apocalipse (Revelação), 1:12 Jesus surge no meio de sete luzes (candeeiros), além dos sete selos 5:1, as sete tochas que são os sete espíritos de Deus 4:5, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc. Sete notas musicais, sete cores do arco-íris e eu poderia passar 7 x 7 dias lembrando setes. (Mas meu preferido continuaria sendo os sete anões da Branca de Neve).

Na Yoga e no significado védico específico dessa história, sete representa, como eu disse acima, os sete níveis da existência humana, que se projetam na coluna vertebral (que é o próprio arco Gandiva), em sete chakras principais:

1- Sobrevivência e acúmulo material
2- Sexualidade e família
3- Alimentação e poder físico
4- Emoções
5- Comunicação e ideias
6- Consciência de si
7- Consciência espiritual

Arjuna tem enorme conhecimento e é capaz de visitar todos os planos da existência, materiais e astrais. Arjuna é o guerreiro espiritual, cujo arquétipo no tarot é o arcano número sete. Mas precisa de Krshna para ir ALÉM da existência, além de tudo que pode, e chegar na causa original, além de tudo que é manifesto e é a própria fonte da manifestação.


2- Mas fiquei pensando, por que uma cobra de mil cabeças? Digo, poderia ser tantos outros seres, é um símbolo?

Cobras e serpentes são um dos arquétipos mais presentes no imaginário e no inconsciente de todas as culturas, todas as épocas e lugares. E não é diferente na mitologia das Puranas. Há no entanto aqui, simbologias bem distintas:
A- Serpentes podem representar os vícios humanos, como na contraposição entre a águia Garuda, que representa a ação purificadora de Lei Cósmica, e seus inimigos ancestrais, as 1000 serpentes.
B- Cobras surgem como Nagas, principalmente nas Puranas com raízes em culturas xamânicas (até hoje as Nagas são reverencidas no Ladak, por exemplo). São Espíritos da Natureza fonte de poder, medicina e conhecimento.
C- Cobras de tamanho fabuloso, como Ananta, nesta história que estudamos, simbolizam o infinito. A palavra Ananta quer dizer “imensurável, o que não pode ser medido”. Em todas as culturas, o sentimento de SUBLIME é despertado por aquilo que não se consegue perceber o fim, aquilo que leva ao infinito. Nesta história Ananta é descrita como branca resplandecente, mas com a goela azul o mais profundo, que são os dois aspectos luminosos do cosmos infinito. Outra cobra infinita nesta mesma mitologia é Kala, que quer dizer “Tempo”.

Ananta, que é o leito da Divindade Suprema, suspensa no Oceano Infinito da Luz ou da Escuridão, representa também todos os seres viventes, já que são eles o próprio reflexo e suporte da manifestação Divina. O número 1000, nesta mitologia, é sinônimo de Infinito. Dizer 1000, ou dizer infinito, é a mesma coisa. Mil cabeças querem dizer então infinitos seres viventes. Mas repare que são 2000 olhos. Isso quer dizer que todas essas infinitas cabeças estão no mundo da dualidade. Ou seja, ignoram que são a manifestação divina, mesmo sendo sua própria sustentação.
D- A cobra também está associada à força vivente na coluna vertebral, a Kundalini. Neste caso, esta é a serpente que pode ser, dependendo do despertar da consciência de cada um, cada uma das três que descrevi acima:
- Pode se manifestar em vícios, quando agindo na inconsciência e na ilusão. (material)

- Pode ser a força mística de cada ser. (astral)
- Pode ser o caminho para o infinito, a consciência suprema realizada. (causal)


3- E o que significa 10 mortes levarem a essa busca atravessando toda a existência? É uma representação também?

São mortes de recém-nascidos. Ou seja, estão em desacordo com a harmonia da Vida. E não apenas uma, mas diversas, seguidamente, para que não reste dúvida de que algo está errado. E no reino de Krshna, que é um Avatar – alguém cuja missão, propósito da existência, é restaurar o Dharma, que é a Harmonia Espiritual, a Lei Universal. Realmente algo está completamente fora do lugar, nos diz o início da narrativa.

A mensagem da história é que aquilo que parece estar muito errado com o mundo, com a comunidade onde estamos, é um chamado para a ação. Um impulso para buscarmos nossa razão de existir, nosso senso de fraternidade, de amor ao próximo e, mais que tudo, a fonte de nossa consciência Espiritual. Há quem diga que o fato de Deus permitir que haja tanta injustiça e sofrimento é a prova de que ele não existe. Mas a história nos diz que esses são exatamente os chamados para sairmos da comodidade de nosso egoísmo, de nosso narcisismo, e nos tornarmos como Arjuna, guerreiros Espirituais. Ou seja, enfrentarmos nossa ignorância e buscarmos a Suprema Consciência.

Arjuna busca as crianças mortas em todos os mundos e planos da existência. E não encontra. E ele fez isso por seu amor pelos pais das crianças, pelas crianças e principalmente por seu amigo Krshna. Mas o próprio Krshna sabia onde estavam as crianças e é quem leva Arjuna a elas, depois que este esgota todos seus recursos. Ou seja, tudo aquilo era apenas um teste, uma prova, para incentivar Arjuna a expandir sua consciência e agir, realizando seu valor e amor ao próximo e à Divindade. O agir, o esforço, a ação amorosa, o senso de sacrifício de Arjuna eram o objetivo de tudo, e não encontrar as crianças. Porque elas estavam o tempo todo bem abrigadas no coração da Suprema Existência. Tudo era apenas uma ilusão de sofrimento para mover Arjuna e permitir a realização plena de seu potencial espiritual. E uma vez que ele luta com todas as suas forças, por compaixão aos outros, chegando ao ponto do completo desapego, oferecendo-se para sacrifício até mesmo físico, a Divindade se revela e o abençoa com a Suprema Visão.

De fato, observo que a maioria das pessoas que dizem estar buscando conhecimento e evolução espiritual, em todos os grupos que conheci, e mesmo nas nossas sanghas da Kriya, estão buscando apenas para elas próprias. Para resolver seus próprios problemas, para aprimorarem a si mesmas e se livrarem do próprio sofrimento, ou por ego espiritual, para se julgarem superiores a outras pessoas que não buscam. Raras as que buscam espiritualmente porque estão preocupadas com o sofrimento alheio. E não vejo que exista ensino, técnica, prática de qualquer tipo que possa mudar isso. A decisão de olhar para os outros e amá-los tanto quanto se ama a si mesmo ainda é puro livre-arbítrio. Mas talvez seja o único movimento verdadeiro, que realmente leva a alcançar o entendimento supremo, a Realidade Transcendental.

Arjuna já era vitorioso mesmo antes de realizar todos os feitos que realizou nessa história e alcançar a Graça Divina, porque desde o início se moveu pelo Amor aos semelhantes e ao seu amigo Krshna, e não por narcisismo egóico. Firmou-se em si (- Não sou tão poderoso quanto os outros, mas sou Arjuna e tenho meu arco Gandiva, posso lutar e, se não conseguir ao menos terei lutado) e foi em frente, disposto ao sacrifício (sacro ofício, consagrar a ação, tornar-se um com o Sagrado).

Quanto ao número de crianças mortas, dez, não sei se é um número qualquer ou realmente simboliza algo específico. O mais importante, me parece, é que significa que “passou do limite, passou de qualquer ponto tolerável”.

O dez é o número mais básico e próximo de nós como limite matemático. Mesmo quem não tem nenhum conhecimento sabe usar os dez dedos da mão para contar. E o limite é justamente dez.

Alguns textos védicos, nos quais o próprio Baba Hariharananda se apoia, dizem que dez são as direções no mundo físico (norte-sul-leste-oeste-nordeste-noroeste-sudeste-sudoeste-acima-abaixo) e dez são os sentidos do mundo físico (visão-olfato-paladar-audição-tato-sexo-excreção-andar-manipular e mente). Dez seria então o limite da nossa experiência no mundo material e a partir daí, esgotado, começamos a perceber que a busca, de fato, está além desse limite.

Mas se alguém tiver uma explicação melhor para esse dez, ou para todas essas perguntas da nossa amiga Vitória, também estou querendo saber.

Com Amor

Y Céu


Seja seu próprio GURU

Seja seu próprio Guru

Baba Hariharananda nos diz: - Seja seu próprio Guru.
 

O que ele quer dizer com isso?

Será que ele quer dizer: - Você não precisa de mestres. Tenha auto-confiança! Acredite em você mesmo, pense positivo que tudo vai dar certo. O que importa é aprender com os próprios erros e seguir em frente.
 

Ou será que ele quer dizer: - Pratique dedicadamente a meditação Kriya Yoga. Desenvolva a consciência em Kuutastha Chaitanya. Adquira o discernimento entre Ahamkara e Buddhi. Permaneça em Citta e liberte-se.

Será Baba um palestrante de Auto-Ajuda ou um mestre de Kriya Yoga? 
Com Amor,
Yogacharya Céu, 15 de Março 2019

GURU: Como funciona a cabeça do seguidor de um guru de araque



Uma história que a gente costuma contar, para entender essa relação peculiar:



Um homem na Índia era devoto de um falso guru, como existem às centenas de milhares, lá e em todos os lugares. Ele viajou durante dias para vir venerar e se instruir com o mestre, que fantasiava ser um iluminado. No exato momento em que chegou no ashram, o falso guru havia dado uma ordem para fecharem os portões principais: - não estava se sentindo disposto a encenar seu papel, e queria passar o dia dormindo.


Narciso, por Caravaggio
Mas quis o destino que o devoto, por um acaso, não percebesse, e entrasse pela porta dos fundos. De repente, para surpresa do devoto e do falso guru, os dois se encontraram no aposento reservado do mestre de araque. Ao ver seu querido guru, o devoto se atirou no chão, gritando: - Amado! Amado! Que alegria encontrar você! Por favor, me diga, como adquirir o conhecimento que liberta?


O picareta, irritado, sentou na cama, abriu as mãos, olhou para o teto, sem dizer nada, e pensou: - Ai, que saco! Como esse chato entrou aqui?

O discípulo, vendo o guru em silêncio olhando para cima, disse: - Sim, claro! Devo buscar a Deus, no alto! Mas amado mestre, como encontrar a Deus?
O picareta, irritado, encolheu a cabeça, mãos cobrindo os olhos fechados, sem dizer nada, e pensou: - C****! Como faço pra esse p*** ir embora??
O discípulo, vendo o guru em silêncio naquela posição, disse: - Sim, claro! Devo buscar a Deus, em silêncio dentro de mim! Claro! Claro!
 
Prostrou-se mais uma vez aos pés do meliante, agradeceu e foi embora, feliz por ter sido abençoado com a sabedoria, luz e amor de seu amado guru.

Com Amor,
Yogacharya Céu
Sampa, 2018 set 18
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O Amor é o mais importante. (parte 3 de 5)

  • Uma canção para o Seu Amor.
  • A história do Fazedor de Chuva.
  • O tal hormônio do amor.
  • Mais amar do que ser amado.
  • Sexo. 
No fim de semana de 27 e 28 de Maio de 2017, o grupo de São Paulo reuniu-se em um sítio para um Retiro de Aprofundamento em Kriya Yoga. O tema de estudo: "O Amor é o mais importante." 

O que segue é a terceira parte do texto base que foi desenvolvido nesse retiro:

Claro que nosso retiro não se resumia a ficar estudando conceitos e textos. Meditamos algumas vezes na técnica do Primeiro Kriya, uma vez na meditação em movimento da linha Theravada, e fizemos alguns exercícios de consciência corporal variados.
Na manhã do segundo dia, após as práticas de corpo, o grupo permaneceu deitado, de olhos fechados, ouvindo esta música do compositor brasileiro Gilberto Gil:
 

O Seu Amor

O seu amor
Ame-o e deixe-o livre para amar
Livre para amar
Livre para amar

O seu amor
Ame-o e deixe-o ir aonde quiser
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser

O seu amor
Ame-o e deixe-o brincar
Ame-o e deixe-o correr
Ame-o e deixe-o cansar
Ame-o e deixe-o dormir em paz

O seu amor
Ame-o e deixe-o ser o que ele é
Ser o que ele é


Eu senti que precisava recomeçar. Que eu não tinha conseguido acertar na noite anterior. Então, resolvi contar a

História do Fazedor de Chuva*


Esta é uma história que Jung aconselhava a seus alunos que fosse contada sempre que o grupo junguiano se reunisse para fazer um seminário ou conferência. Num dos últimos Natais, pouco antes de sua morte, em um jantar de confraternização, Jung contou ela novamente. Todos já a conheciam, no entanto, assim que terminou de ser contada, declararam que a atmosfera toda mudou.

A história é verídica. Foi vivida pelo amigo próximo de Jung, o sinólogo Richard Wilhelm. Ele estava vivendo em uma aldeia, em região remota da China, que passava por uma seca terrível. Quando a situação estava completamente insustentável, para essa gente que dependia da chuva para ter o que comer, resolveram buscar um “fazedor de chuva”.

Wilhelm acompanhou o caso com atenção: O homem, um velho ressequido, veio em uma carroça coberta. Quando chegou e saiu do veículo, fungou com expressão de nojo. Pediu então que o deixassem isolado sozinho em uma pequena cabana próxima, mas externa à aldeia. Suas refeições deveriam ser deixadas na sua porta.

Durante três dias ele permaneceu ali. Depois disso, começou a chover. Cada vez mais forte. Não só choveu intensamente, como até nevou, como nunca se tinha visto antes nessa época do ano. Wilhelm ficou impressionado e foi procurar o homem na cabana. Queria saber como ele tinha feito chover, e até nevar.

O fazedor de chuva respondeu que não era responsável por aquilo. Wilhelm insistiu: - Havia uma seca terrível e trouxeram ele pra fazer chover. E poucos dias depois, choveu intensamente. O que aconteceu?

“Ah, isso eu posso explicar! - Disse o homem - Eu venho de um lugar distante, onde as pessoas estão em ordem, em harmonia com o Tao. Então o tempo também está em ordem, em harmonia. Mas quando cheguei, percebi que as pessoas não estavam em ordem. E elas logo me contaminaram. Então precisei ficar sozinho, até estar de novo em Tao. Quando entrei em ordem, naturalmente choveu e nevou.”

Fim da história.

(* A História e as observações sobre ela podem ser lidas no livro escrito pela amiga próxima de Carl Jung, Barbara Hannah: “Rencontres avec l’Âme – L’imagination active selon C.G. Jung”)

Então é disso que tratamos quando realizamos o Amor: encontrar em si o pivô de nossa consciência amorosa. Não depender nem de pessoas e nem de deuses externos. Não nos deixarmos contaminar por nossas projeções, nossas transferências, que forjam inimigos e diabinhos.

Assim que a meditação é arte e ciência de trazer a consciência ao centro, à fonte. Gradativamente ir se desidentificando de nossas projeções, nossas transferências, para chegarmos, fisicamente, ao ponto chamado de Centro da Consciência: o Sexto Centro, Centro Crístico. Como diz Baba Hariharananda: O Ponto Atômico. Onde o som se funde à luz e a vibração de onda, em uma unidade amorosa, não relativa a espaço e tempo. Terceiro olho, onde se desfazem as dualidades.

Os Gurus nos pedem para que observemos nosso EU, guiados através da respiração plenamente consciente, até que cheguemos no ponto vácuo atômico que é a porta do Espírito. Algumas das técnicas que estudamos, utilizando diferentes órgãos e músculos da cabeça, nos permitem chegar até esse ponto. Ele é o próprio centro vazio da órbita das glândulas pineal e pituitária. Aqui eu posso afirmar a quem lê este texto agora, que isso é possível sim. Eu, que sou cheio de limitações e precariedades, consigo. Então certamente você também consegue. Precisa de alguma persistência e disciplina. De preferência alguma técnica de meditação decente, praticada diariamente. Um professor que saiba mesmo do que se trata, ajuda muito. Tenho a benção, é verdade, de ter na minha vida alguns professores muito bons. Mas o essencial é sua busca e empenho, não o professor. E tem aquela história de que quando o aluno está pronto, o professor aparece. Bom, não é exatamente assim que acontece, mas é mais ou menos isso. Então, vai se aprontando, desde já.

O essencial aliás, é sua capacidade de identificar em si mesmo o AMOR. Essa é a pista mais importante. Deste jeito, por exemplo:
Tem muita coisa relacionada à meditação nessa área do cérebro acima da medula oblongata. Pra isto não ficar ainda mais longo, vamos focar no hormônio oxitocina. Alguns cientistas, pra simplificar, dizem que é o hormônio do amor. Que é a liberação dele na corrente sanguínea que proporciona sensações de afeto, prazer físico, aconchego e pertencimento. Ele é produzido no hipotálamo e armazenado na pituitária, especificamente na neuroipófise.

Pessoas que não desenvolvem autoconhecimento, quando tem descargas de oxitocina, creditam a personagens externos sua sensação de prazer e acolhimento: a mamãe sorridente, o namorado bonito, o time de futebol, a irmandade com as mesmas crenças, o carro novo, os “likes” nas redes sociais... E por outro lado, sentem como ameaça a sua fonte de oxitocina, tudo que “ameaça” seus personagens: o irmãozinho que roubou a atenção da mamãe, a garota bonita que está conversando com “meu” namorado, a torcida adversária, os que pensam diferente, etc.
Ou seja, a dependência química que TODOS NÓS temos da oxitocina, também é a razão de nosso ódio cego, do sangue nos nossos olhos, quando nos deparamos com algo ou alguém que ameace o que pensamos ser nossa fonte de “amor”.
 

Por outro lado, a pessoa que medita consistentemente, automaticamente vai se tornando capaz de liberar sua oxitocina a partir da própria experiência de aprofundamento da cognição interior. Se torna auto-suficiente no fornecimento da droga que mais necessita... Mais uma vez: a pista para esse processo é a consciência do AMOR.

Você talvez se pergunte: Mas então ela deixa de amar os outros?
Não. Ela deixa de se iludir com a fonte de sua experiência amorosa. Quanto mais sensível a essa experiência, mais ela pode, por vontade própria, dedicar esse amor que sente a quem quer que seja. Passa a entender, em um nível mais aprofundado, a oração de São Francisco de Assis:
...
Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.
 


A oração remete ao eixo discípulo-mestre, que é o eixo das duas pétalas (HAM-SA) exatamente do Sexto Centro. A liberação, a realização da imortalidade da alma, se dá nesse eixo. Quando nos percebemos puramente existentes no vácuo do ponto atômico. E, amando a si mesmo sem dependências, conseguindo mais amar do que ser amado.
Entendeu? Não? Então medite mais. Com Amor.

Por último, lembrando a fala de um de nossos amados professores, o Yogi Sarveshwarananda: - As pessoas fazem tudo por amor. É por amor ao dinheiro que o obcecado em dinheiro se move. É por amor ao sexo que o viciado em sexo se move. É por amor à guerra que o louco das guerras se move. É por amor à família que os pais se movem. É por amor à poesia que o poeta escreve. Todas as formas de ação, virtuosas ou viciosas, são movidas por Amor.
E nenhuma delas libera o espírito, não importa se virtuosa ou viciosa. O que liberta é a compaixão, a capacidade de não estar preso ao objeto do amor. Então, sim, é verdade, vamos verificar que os seres que desenvolvem esse tipo de amor com espírito livre, vão dedicar seu amor às expressões virtuosas do Amor.
O verdadeiro bem não é uma opção, é uma conseqüência:
Conseqüência da conquista sagrada do Amor.


No trecho anterior eu escrevi que trataria da questão do sexo, por causa do conto de João Boca de Ouro.
Se João tivesse sido um asceta rishi, alguns milhares de anos antes, nos tempos anteriores ao pré-brahmanismo, não teria se atrapalhado tanto com a atração sexual que sentiu pela “bela” princesa. Sua confusão exagerada e sua explosão emocional foram fruto da orientação cega que recebeu da então vigente instituição religiosa.

Um asceta limita suas experiências sexuais, não porque o ato em si seja um problema. Mas:


- O ato sexual libera “energia” no corpo, através da liberação de hormônios e ação dos neurotransmissores. O processo de canalização dessa “energia” para consciência transpessoal é parte dos estudos avançados de meditação. Quem se dedica a essas práticas realiza “jejuns” ou “concentrações” e “expansões” de sexo, como parte desses estudos. Essas práticas necessitam orientação cuidadosa e são diferentes, de acordo com o gênero sexual.

- O ato sexual, em si, é neutro. Mas pode ser, ou um ato de posse e afirmação egoísta, ou um ato de integração e elevação amorosa. Depende da consciência de quem o pratica: vai com a consciência para baixo ou para cima. O que vai pra baixo, leva cada vez mais pra baixo. O que vai para o Amor, se ilumina. Entendeu?

Baba Hariharananda tem uma forma simples de orientar essa questão:
- No ato sexual (antes, durante e depois) lembre-se: não é você quem está fazendo sexo, é o Deus manifesto quem está fazendo sexo através de você.
É uma orientação bem didática essa, mesmo que você faça questão de não acreditar em Deus.
Da consciência profunda dentro de você, observe de onde vem seu desejo sexual, onde ele o/a coloca, e para onde o/a leva.
Esse é um dos caminhos para entender o significado de Shakti.

O sexo é um dos mais evidentes e poderosos canais da vitalidade (mas não o único e nem o mais poderoso). Através desse canal existe a possibilidade de elevar ou baixar a consciência amorosa. Você decide.

No final da manhã do segundo e último dia eu já estava plenamente consciente que não chegaria, nesse retiro, com as pacientes almas que resolveram tolerar minha pretensão, até onde eu achava que chegaria.
Eu ainda nem tinha começado a estudar o livro de Sree Yukteshwar, que era afinal o ponto principal do programa...
Nas próximas duas partes (e finais) desta sequência de posts, trato disso.

Yogacharya Céu, São Paulo, Brasil, maio-agosto 2017
(revisado em Aalter, Bélgica, dezembro 2017)


O Amor é o mais importante. Parte 1 de 5

O Amor é o mais importante. Parte 2 de 5

O Amor é o mais importante. (parte 2 de 5)


  • Um polêmico conto germânico do século XV. 
  • O mito do viveram felizes para sempre. 
  • Instituição x Verdade. 
  • Sinceridade.
No fim de semana de 27 e 28 de Maio de 2017, o grupo de São Paulo reuniu-se em um sítio para um Retiro de Aprofundamento em Kriya Yoga.  O tema de estudo: "O Amor é o mais importante."

O que segue é a segunda parte do textobase que foi desenvolvido nesse retiro: 

Na noite do primeiro dia, nos reunimos ao redor de uma fogueira, para ouvir uma história.

Há muitas histórias que nos fazem refletir sobre o que é o Amor. Eu optei por uma que desafiasse o que tínhamos estudado até ali e colocasse uma perspectiva diferente. Muitas vezes é importante desaprender o que virou clichê na nossa cabeça. Tirar as teias de aranha das certezas. 
Mas talvez eu tenha exagerado na dose. Algumas reações foram além do que eu esperava. Eu primeiro vou contar a história. Depois, explico:



A Penitência de São João Crisóstomo
(por Lucas Cranach, o Velho, circa séc.XV-XVI)
Este antigo conto germânico, do século XV, é uma versão folclórica medieval da vida de São João Crisóstomo. Se o conto já tem quase 500 anos, o santo é ainda mais antigo: Foi bispo nos primeiros tempos do Cristianismo, tendo nascido na Antioquia cerca de 345 d.C.

A História de João Boca de Ouro*


O conto, estranho e fantástico, diz que houve em Roma um Papa que gostava de viajar com seus cavaleiros. Em uma dessas viagens o Papa afastou-se do grupo e cavalgou, lenta e solitariamente, para um local ermo, afim de fazer suas preces. No silêncio solitário escutou um lamento. Uma voz infeliz se lamuriava. O Papa procurou pelo dono da voz, mas não viu ninguém. A voz continuava a chorar e se lamentar, mas nada se via.


O Papa pensou que se tratava de um fantasma e disse em voz alta: 
- Você, quem chora! Em nome de Deus me diga quem é! 
A voz, dolorosamente respondeu: 
- Sou uma alma miserável e amaldiçoada, sofrendo nas chamas do inferno... 

O Papa ficou com pena do infeliz e perguntou se havia algo que podia fazer para ajudá-lo.
- Nada pode fazer! Foi a resposta. - Mas em Roma há um homem muito bom, casado com uma mulher cheia de virtude. Em breve eles terão um filho, que se chamará João. Crescerá um homem abençoado e se tornará sacerdote. Se ele rezar dezesseis missas em minha intenção, serei enfim libertado das chamas do sofrimento. Em seguida o fantasma deu detalhes de como encontrar o casal de pais. E depois de um longo urro que gelou o sangue do Papa, desapareceu.

De volta a Roma o Papa procurou pessoalmente o piedoso casal. De fato esperavam o nascimento de uma criança. Concordaram em receber a proteção do Papa. Quando a criança nasceu, foi levada até ele, que a batizou João.

Considerado pelo Papa como um filho, aos sete anos João foi para a escola. Mas o menino tinha muita dificuldade com os estudos e logo tornou-se alvo de chacotas dos colegas. Sentia-se envergonhado e triste. Assim que, a cada manhã, passou a rezar diante do altar de Nossa Senhora. Um dia, para sua surpresa, a imagem esculpida falou: - João, beija minha boca. Beija-me e se tornará o mais sábio homem da terra, mestre de todas as artes.  Com medo e tremendo, o menino fez o que a imagem pediu.

No mesmo dia, na escola, via-se a volta de sua boca um círculo dourado de luz brilhante. E sua inteligência desabrochou assombrosamente. Tudo ele respondia, tudo ele sabia. A partir desse dia passou a ser o professor da escola e recebeu o apelido de João Boca de Ouro.

O Papa, sempre lembrando da alma sofredora que encontrara anos antes, fez com que João fosse ordenado sacerdote o mais cedo possível.  O rapaz celebrou sua primeira missa mal completos dezesseis anos. Mas dentro de si João estava desconfortável diante de Deus. Achava-se jovem demais e despreparado. Decidiu que assim que terminasse o banquete em sua homenagem, logo depois da missa, deixaria toda aquela riqueza material, para se tornar um eremita pobre vivendo no ermo.

E assim fez. Apos receber as honrarias e felicitações e depois que os convidados foram embora, partiu escondido, vestido com trapos e levando apenas um pedaço de pão. Quando o Papa deu conta do sumiço do jovem prodígio, deu ordem de busca. Mas em vão. Ninguém encontrou o paradeiro de João, que instalou-se em um local escondido e deserto, na floresta, a beira de um abismo. Vivia em uma casa feita de cascas de árvores, comia raízes e ervas. Jejuava, orava e mantinha-se desperto, em busca da revelação.

Não muito longe dali, estava o castelo do Imperador. Um dia, a princesa, filha do monarca, estava colhendo flores, quando um forte tufão soprou subitamente. Ela e suas amigas foram levantadas pelo vento. Mas quando o vento passou, a princesa estava desaparecida. A guarda imperial a procurou incansavelmente, sem sucesso, abatendo de tristeza o Imperador.

De fato o vento levara a jovem donzela até a porta da cabana de João. Assustada, mas sem nenhum ferimento, a princesa ajoelhou diante da casinha e pôs-se a rezar, acalmando-se.  O rapaz ouviu a voz e veio ver o que era. Alarmou-se diante da beleza. Mas a jovem suplicou para que ele a abrigasse, argumentando que poderia morrer de fome ou ser atacada pelos animais da floresta. João cedeu e a admitiu em sua pobre casinha de um só cômodo.

João riscou uma linha no chão de terra da cabana, dividindo-a em duas partes iguais. Os dois passaram a viver juntos, mas sem se tocarem. Igualmente alimentavam-se de ervas e raízes, jejuavam e oravam. Mas crescia o desejo entre os dois e, depois de um certo tempo, João cedeu e entregaram-se ao prazer do corpo. E depois João caiu em arrependimento.

O arrependimento transformou-se em fúria. Empurrando a moça para que se afastasse, acidentalmente jogou-a no abismo que ladeava a casinha. No mesmo instante percebeu que acabara cometendo um erro muito mais grave. Gritou de dor e arrependimento: - Matei uma moça inocente! 

João saiu correndo pela floresta, desesperado e aos prantos: - Senhor Meu Deus, por que me abandonou? Gritava. Então decidiu ir até Roma para se confessar na igreja. Coincidentemente foi o Papa, seu padrinho, quem recebeu sua confissão. Separados pela cortina do anonimato, os dois não se reconheceram. Ao ouvir o que João fizera, o Papa não aceitou o arrependimento: - Suma daqui! O que você fez não pode ser perdoado. Você é um animal selvagem! 

João voltou a sua cabana. Pensava: - Não duvidarei da misericórdia de Deus, que é maior do que qualquer pecado. Prometo caminhar de quatro, como um animal, até que Deus me de a graça do seu perdão. E inclinou-se no chão e passou a viver assim. Passaram-se os anos e João nunca mais se levantou. Suas roupas apodreceram, seus cabelos e pelos cobriam a pele suja e áspera. Não parecia mais um ser humano.

Enquanto isso, em Roma, a esposa do Imperador deu a luz a uma nova criança. O Papa foi chamado para batizá-la. No momento em que tomou o bebê nos braços, todos em volta ficaram assombrados, porque o recém nascido falou. E suas palavras foram: - Não é você quem pode me batizar! Eu só serei batizado pelo Santo João, que virá da floresta, enviado por Deus. A criança foi devolvida imediatamente aos braços da ama de leite. Aturdido, o Papa perguntava a todos se sabiam onde estava esse tal santo João, mas ninguém sabia responder.

Por esses dias, os caçadores imperiais capturaram um estranho animal. Como o animal não tentou fugir e nem opôs resistência, foi trazido vivo  para o castelo. Solto no pátio, para que todos pudessem vê-lo, escondeu-se embaixo dos bancos. Uma multidão de curiosos cercou-o e tentavam empurrá-lo com varas e lanças, para que pudesse ser visto. Entre os curiosos estava a ama de leite, segurando o bebê do Imperador. E novamente, para o grande espanto dos que estavam presentes, o recém nascido falou: - Levanta, João! E venha me dar o batismo! 

Novo espanto. O estranho animal no chão levantou a cabeça e todos viram que era a de um ser humano. E disse: - Se o que diz é verdade, e se essa é a vontade de Deus, fale novamente. 

E o pequeno bebê repetiu: - João, meu amado! Sinta a alegria e a misericórdia divina, porque Deus perdoou os seus pecados. Levanta e venha me dar o batismo! E João colocou-se em pé. No mesmo instante toda a sujeira tombou do seu corpo como se fossem cascas. Limpo e iluminado, João foi vestido ao mesmo tempo em que batizava o infante.

Levado ao Papa e ao Imperador, não foi reconhecido como o João que partira anos antes. Mas exalava tanta paz e luminosidade, que foi recebido como um santo rei. Ouviram sua história e passaram a saber quem era. Mas ao Imperador restou o lamento. Chorou por sua pobre filha e pediu a João que o levasse até o local do acidente. Pensava que poderia recolher os ossos da falecida e dar-lhe ao menos um sepultamento.

João levou o Imperador e seu séquito até o despenhadeiro, local de sua antiga choupana. E quando debruçaram-se diante do abismo, mais uma surpresa assombrosa: Lá estava a princesa, envolta em luzes, viva e com a mesma beleza que tinha quando sumiu no dia do vento. – Os anjos me sustentaram! Disse ela, como se o tempo não tivesse passado. – O que esperam para me tirar daqui? 

Todos voltaram para Roma. O imperador e sua esposa abraçados à princesa e agradecendo a Deus por mais aquele milagre. O Papa por sua vez, indagou João: 
- João, quantas missas celebrou?
- Apenas uma. Aquela primeira. Respondeu 
- Meu Deus, a alma ainda o espera! Replicou o Papa. E explicou tudo que

acontecera, anos antes ainda do nascimento de João.

Durante os quinze dias seguintes, João conduziu as missas restantes, libertando a alma misteriosa de sua pena. Os anos passaram, João tornou-se bispo e suas palavras eram recebidas como bênçãos na forma de uma chuva de ouro. E quando escrevia e a tinta acabava, molhava a pena nos lábios e escrevia palavras de ouro. E assim, como na infância, voltou a ser chamado de João Boca de Ouro.

Fim da história.

(* A História de João Boca de Ouro pode ser encontrada, com mais detalhes, no livro “A Conquista Psicológica do Mal”, de Heinrich Zimmer, compilado por Joseph Campbell )

Ao terminar de contar a história, perguntei aos participantes do retiro o que achavam. Havia um certo sentimento de perplexidade e até incômodo.

Houve quem questionou o exagero de João. Para que se sentir tão culpado pelo desejo sexual. Por que não aceitou seu envolvimento com a princesa como amor, largou os dogmatismos da igreja e casou-se com ela.

E talvez pudessem viver felizes para sempre?

Será que é esse nosso real entendimento de amor, então?

Quando instigados a pensar no amor, produzimos conceitos filosóficos muito elegantes e belos. Mas quando chacoalhamos um pouco nossa memória, o que acaba vindo a tona é nosso desejo de viver um romance de conto de fada (com um pouco de erotismo, que ninguém é de ferro)?

Bem, nesse momento do retiro comecei a me perguntar se eu conseguiria realmente transmitir o que pretendia. De fato, no final do retiro, percebi claramente que não. Mas vamos ver um pouco melhor uma possível interpretação desse antigo conto, quase medieval:

Seria pouco inteligente discutir se os fatos dessa história são verdadeiros, parcialmente ou completamente imaginados. Ainda que eu mesmo tenha testemunhado que a ordem esperada da realidade possa ser alterada, os chamados milagres, não é isso que me importa neste conto. O que podemos aproveitar desse tipo de fábula sobrenatural, é o desafio ao entendimento de nossos próprios valores. O questionamento que podemos fazer sobre os alicerces de nossas crenças e a possibilidade de nos encontrarmos com o entendimento de seus símbolos como portas para nossa própria realização. As metáforas do inconsciente, que se manifestam em sonhos, contos populares e arte, são (algumas vezes) pistas para nossa libertação.

O contexto histórico dessa história é: Germânia (Alemanha) no século XV.  Está se vivendo o início da Reforma. É a época de Lutero e dos questionamentos sobre a autoridade do Papa e da Igreja Católica. Além disso evoca a figura de São João Crisóstomo, que no século IV foi um bispo que desafiou muitas vezes a instituição papal, para ficar do lado do povo humilde. O conto não desrespeita o Papa, mas o apresenta como um homem que, ainda que bom e compassivo, não alcança a dimensão espiritual da autêntica santidade. O conto revela logo no início uma forte reverência à adoração de Nossa Senhora, representada por uma imagem *2 . Portanto tem raízes católicas e não adotou os dogmas do protestantismo. Mas questiona a instituição religiosa, representada pelo Papa, em contrapartida à autentica santidade, representada por São João. É um conto popular que anuncia, naquela época, o esvaziamento da crença na Igreja institucional, e a busca de uma autenticidade espiritual, em algum lugar mais verdadeiro e próximo das raízes. 

E aqui está o ponto que realmente me fez contar esta história: A busca espiritual vai além das convenções institucionais. Muito importante: Para se encontrar a Verdade, o Amor que liberta, não se pode temer rever as regras que impõe obediência cega.

Não importa a ideologia ou a crença religiosa: o dogmatismo sempre aparece quando as pessoas se reúnem e começam a criar regras. É bom que as pessoas possam se organizar para fazerem o bem, para invocarem o Amor. Mas é preciso estar alerta para que a organização não se torne mais importante que o Amor. O Amor é o mais importante.

Uma das coisas que chama a atenção na história de João Boca de Ouro é que, apesar de suas limitações, sua dificuldade em estudar, seu destempero que acaba empurrando a moça para o despenhadeiro, existe algo dentro dele que o guia. Sua realização já estava traçada desde antes do nascimento: Até no Inferno ele era esperado para trazer a libertação. Mas ele ainda não estava livre quando nasceu. Ainda não tinha encontrado dentro de si a criança divina que o chamaria para revelar a si mesmo. E essa criança, por força de seu empenho em encontrar a Verdade, acaba falando pela boca de uma outra, para que ele possa finalmente estar em pé, coluna ereta, pronto para fazer o que cumpre-se que se faça através dele.

Sim, quando ele é menino, por força da inocência, revela por um tempo a sua identidade: é a primeira aparição de João Boca de Ouro, o menino ignorante que subitamente se torna um professor. Mas a adolescência lhe traz o corpo adulto e os hormônios. Como lidar com as próprias paixões, com o desejo, com a raiva, a sensação de impotência e o sentimento de culpa? Ele busca o caminho institucional: a confissão e o perdão do padre no confessionário. Mas nem o próprio Papa, que também é seu padrinho é capaz de libertá-lo. Ele precisa se curvar e buscar dentro de si. Há porém algo que não se curva: a convicção que a Misericórdia, que não é outra coisa senão o Amor Divino, é maior do que qualquer erro, do que qualquer pecado. 

- A qualidade número um do buscador espiritual é a sinceridade, diz Baba Hariharananda. Isso não significa ser bruto ou inconveniente com os outros. Podemos desenvolver a paciência e o respeito com os outros, mas sempre sendo sinceros com nós mesmos. A sinceridade e franqueza é consigo mesmo. Quem realmente quer encontrar a realização do Amor e da Verdade espiritual, não pode se enganar.

Precisa admitir para si mesmo o que realmente está pensando, sentindo, entendendo, e quais são suas dúvidas. Trata-se de uma permanente e profunda investigação interior. Não pode aceitar meias verdades, que são meias mentiras, com a desculpa de estar “bem” com uma situação que na verdade nem entende e nem aceita. Admitir as próprias limitações. Não idolatrar pessoas. Não ser hipócrita. 

Entende por que escolhi essa história? Há que se buscar dentro de si, sinceramente, o Amor, se quiser entender o que realmente é a Meditação e a prática de Kriya Yoga: - O Amor é o mais importante. 

Há que se tomar cuidado com as instituições. Cuidado para não transformar sua prática de Kriya Yoga em uma adoração institucional aos gurus, aos livros, à técnica, às palavras. É fundamental não transformar a prática da meditação em um culto ao próprio ego: - Eu sou mais importante, porque medito. Eu sou mais importante porque sigo o Guru X, ou o Mestre Z. Ou  sou mais importante porque sou um inteligente ateu, ou um inteligente qualquer outra coisa. Não é nem a instituição e nem você que são o mais importante para a realização na meditação. O A-M-O-R é o mais importante. 

Certamente um dos pontos em que as pessoas se confundem nesse conto, é a repulsa de João ao sexo. Nos faz pensar nos dogmas ultrapassados de religiões que condenam o prazer sexual, ou que o consideram pecaminoso. Mas vou deixar para tratar desse assunto na próxima parte desta série.

Na noite em que estudamos essa história, antes de nos recolhermos para o sono, uma das participantes propôs que uma dança circular em volta da fogueira. Foi bem legal. Minha cabeça descansou um pouco. Mas comecei eu mesmo a perceber que não estava à altura da tarefa que tinha me proposto. Eu ainda não tinha em mim consciência suficiente do Amor, para poder compartilhá-la. Ainda estava me escorando demais em palavras e conceitos.

Yogacharya Céu, São Paulo, maio-agosto 2017

(*2 Barbara Lein, nossa amiga de meditação, me escreve assinalando que a rejeição à Virgem Maria, pelo protestantismo, é um fenômeno mais recente, e que não condiz com o pensamento de Martinho Lutero. Nos enviou este link que sugiro que também leiam: Lutero, os Reformadores e Nossa Senhora )

A nossa Linhagem de Gurus

 

Mahavatar Babaji
O ressurgimento contemporâneo da Kriya Yoga começou em 1861 em uma caverna de uma remota montanha do norte da Índia, quando Babaji Maharaj iniciou Lahiri Mahasaya em Kriya Yoga. Desde então, esta ciência espiritual eterna vem sendo transmitida através de uma linhagem de professores realizados.
Este Kalpayogi ("Yogi Supremo") é considerado pela tradição antiga como uma encarnação iluminada e imortal. Viaja no plano astral e projeta uma forma humana para aparecer a alguns discípulos altamente realizados.
Baba Hariharananda passou quase onze anos em silêncio, isolado no ashram de Karar, em Puri, até obter a visão sagrada (darshan) e as bênçãos (ashirbad) de Babaji.
Acredita-se que Babaji guia a humanidade à distância e raramente é visto em forma humana. Ele veio para Lahiri Mahasaya para reintroduzir a antiga ciência yogue perdida, e para este período deu-lhe o nome de "Kriya Yoga".




Sree Shyama Charan Lahiri Mahasaya (1828-1895)
Conhecido como um Yogavatar ("Encarnação do Yoga"), Lahiri Mahasaya era contador, casado e com filhos, trabalhando para o departamento de construção da empresa ferroviária em Varanasi.

Um dia, em 1861, seu escritório o enviou "por engano" (acredita-se que na verdade uma transferência trazida pelo poder místico do próprio Babaji) às montanhas Ranikhet. Ali ele encontrou Babaji, que iniciou-o em Kriya Yoga e lhe deu a missão de transmiti-la pelo mundo.

Ele escolheu Lahiri Mahasaya em parte para mostrar que os humildes chefes de família podem obter o mais alto nível de realização, e não apenas os sannyasins (monges e eremitas).

Assim, alguns anos mais tarde, quando o grande Swami Trailanga, o monge errante nu, viu que Lahiri Mahashaya estava vindo para reverenciá-lo, imediatamente pulou de alegria e abraçou-o. Depois que Lahiri Baba partiu, um dos discípulos de Swami perguntou ao santo por que ele, um sannyasin supremo, mostrou tanto respeito a um simples pai de família. Swami Trailanga respondeu: "- Ele alcançou o estado yóguico enquanto permaneceu como pai família. Eu, por outro lado, tive que abandonar até mesmo à minha tanga!"

Lahiri Baba é conhecido hoje como "o Pai da Kriya Yoga", já que iniciou e guiou milhares de devotos enquanto mantinha sua família e seu trabalho.



Bhupendranath com sua esposa Kalidasi
Shrimat Bhupendranath Sanyal (1877-1962)
Bhupendranath foi um dos mais jovens discípulos de Lahiri, tendo recebido iniciação na idade de quinze anos, e nomeado yogacharya com a idade de dezoito.

Já chefe de família, muito avançado em espiritualidade, fundou um ashram chamado Gurudham, em Puri, Orissa, e outro chamado Mandar, em Bhagalpur, Bihar. Autor de vários livros, seus escritos são pedras preciosas de espiritualidade. Ele é famoso por seu profundo conhecimento do Bhagavad Gita, a respeito do qual escreveu uma interpretação metafórica, à luz da Kriya Yoga, em três volumes.

Paramahamsa Hariharananda recebeu dele, em Puri, as iniciações nos 4º, 5º e 6º (final) graus de kriya.
Entre os muitos discípulos diretos de Bhupendranath Sanyal estão:
 
- Acharya Nikhil Dey 
- Acharya Shailendranath Mukherjee 
- Acharya Jwala Prasad Tiwari 
- Acharya Sunil Kumar Ghosh 
- Paramahamsa Hariharananda



Swami Sree Yukteshwar Giri (1855-1936)
Este grande
Jñanavatar ("Encarnação do Conhecimento"), originalmente era um pai de família chamado Priyanath Karar. Viúvo jovem,  após concluir a criação da única filha, renunciou ao mundo e tornou-se conhecido como Swami Sree Yukteshwar.

Foi um dos discípulos mais avançados de Lahiri Mahasaya e muito versado em astronomia, astrologia e matemática. Alcançou o mais elevado estado de realização, o nirvikalpa samadhi (ausência de respiração e pulso).

Escreveu comentários do Bhagavad Gita e, por ordem de Babaji, um livro que esclarece a semelhança entre a Vedanta e os ensinamentos de Jesus ("Ciência Sagrada"). Fundou um ashram em Serampore, nas favelas de Calcutá. Mais tarde criou o ashram Karar, em Puri, no estado de Orissa, onde iniciou e guiou milhares de discípulos.
Entre os muitos discípulos diretos de Yukteshwar estão:

- Paramahamsa Yogananda
- Swami Satyananda Giri
- Swaminarayan Giri (conhecido como Prabhuji)
- Acharya Motilal Mukherjee
- Bijoy Kumar Acharya Chatterjee
- Paramahamsa Hariharananda



Swami Satyananda Giri (1896-1971)
O jovem Manmohan Mazumdar foi amigo de infância de Paramahamsa Yogananda, sendo mais tarde conhecido como Swami Satyananda. Ele era altamente educado (Bacharel de Ciências em Filosofia) e monge espiritualmente avançado, discípulo de Sree Yukteshwarji.

Foi diretor da escola de Ranchi e, mais tarde, sadhu sabhapati (presidente) do Karar Ashram, fundado por Sree Yukteshwar, onde permaneceu até deixar a sua forma física em 1971. Fundou uma organização chamada Sevayatan (Missão Satsanga), em Jharagram, no distrito Medinipur de Bengala. Cuidou da melhoria social e espiritual das populações locais, especialmente pobres e camponeses.

Ele será sempre lembrado como uma alma simples, nobre, amorosa e dedicada à mais alta realização. Indicou Paramahamsa Hariharananda como presidente do Karar ashram, para depois de sua morte.
Entre os muitos discípulos diretos de Swami Satyananda estão: 
- Swami Dhirananda Giri
- Swami Niranjanananda Giri
- Swami Jagadananda Giri
- Swami Shuddhananda Giri
- Paramahamsa Hariharananda



Paramahamsa Yogananda (1893-1952)
Paramahamsa Yogananda foi o introdutor da Kriya Yoga no Ocidente. Inicialmente conhecido como Mukunda Lal Ghosh, ele foi treinado por Swami Sree Yukteshwar, de 1909 a 1920, até receber o mandato, de Babaji Maharaj, para viajar ao oeste e espalhar a mensagem da Kriya Yoga por todo o mundo.

Estabeleceu o seu centro de estudos na Califórnia, a "Self-Realization Fellowship". Voltou para sua amada Índia só em 1935, para rever seu guru Sree Yukteshwarji, pouco antes da morte deste. Voltou aos EUA em 1936, onde permaneceu até seu mahasamadhi, em 1952.

Compartilhou os ensinamentos do Kriya Yoga com milhões de pessoas em todo o mundo, através de suas palestras, cursos por correspondência, livros e iniciações. Seu livro “Autobiografia de um Iogue” é um dos clássicos espirituais mais reconhecidos do mundo.
Entre os muitos discípulos diretos de Yogananda estão:
- Swami Atmananda Giri
- Swami Vidyananda Giri
- Yogacharya J. Lynn (conocido como Rajarshi Janakananda)
- Hna. Faye Wright (conocida como Daya Mata)
- Yogacharya Roy Eugene Davis
- Yogacharya Donald Walters (conocido como Swami Kriyananda)
- Hna. Gyanamata
- Yogacharya Oliver Black
- Yogacharya Bob Raymer
- Paramahamsa Hariharananda  


Paramahamsa Hariharananda (1907-2002)
É até o momento o último mestre realizado conhecido da linhagem, também chamado de Karunavatar ("Encarnação da Compaixão").

Desde tenra idade ele foi chamado para a vida espiritual, revelando talento intelectual extraordinário. Por exemplo, com a idade de quatro anos e meio, memorizou todos os mantras de puja, depois de ouvi-los de seu pai apenas algumas vezes. Tomou o voto de celibato com a idade de onze anos. Quando tinha vinte anos conheceu Sree Yukteshwar e foi iniciado em Kriya Yoga.

Memorizou e compreendeu todas as grandes escrituras, incluindo os Vedas, os Upanishads, a Bíblia Sagrada, o Corão e a Torá.

Paramahamsa Hariharananda foi um yogi único. Ele obteve o estado yóguico mais elevado, sem pulso e sem respiração, estado também conhecido como nirvikalpa samadhi. Foi observado nesse estado por diversos médicos.

Raghabananda e Hariharananda
Ele era completamente livre de qualquer dogma religioso ou crença sectária. Sua perspectiva refletia em sua abordagem científica para o ensino da Kriya Yoga. Toda a sua vida foi orientada e focada na educação espiritual. Conhecê-lo e receber sua bênção é apreciado e lembrado por aqueles que tiveram esta oportunidade.


Entre os muitos discípulos diretos de Paramahamsa Hariharananda estão:
- Rajarshi Raghabananda Nayak
- Swami Brahmananda Giri
- Yogi Sarveshwarananda Giri
- Yogacharya Gonesh Baba
- Yogacharya Céu
- Yogacharini Durga Chunduri
- Rajarshi Peter van Breukelen
- Swami Prajñanananda Giri
- Swami Premananda Giri
- Swami Mangalananda Giri
- Swami Shuddhananda Giri
- Brahmachari Swarupananda Giri
- Swami Vidyadhishananda Giri
 



Anandamayi Ma e Yogananda, 1935
Anandamayi Ma (1896-1981)

Nascida em Bengal Leste (hoje Bangladesh), Anandamayi não faz parte da linhagem de transmissão da Kriya Yoga de Hariharananda. Mas por ter sido reverenciada pelos gurus, em especial por Yogananda e Hariharananda, passou a ocupar lugar de destaque entre os praticantes da Kriya Yoga.

De origem simples e trabalhadora dedicada, desde menina entrava em estados de transe estático. Sem ter aprendido com ninguém as práticas de yoga e meditação, assumia posturas e respiração yóguica, contagiando o ambiente e os presentes com intenso sentimento de paz. Tinha grande consciência do que se passava consigo mesma e podia assim guiar outras pessoas na prática da meditação profunda.

É considerada auto-realizada e auto-iniciada. É um exemplo de como a alta consciência da meditação pode surgir espontaneamente, independente de ensinos ou qualquer tipo de característica exterior.





Fontes:

El Arte De La Paz (Yogi Sarveshwarananda)