FEMININO & MASCULINO CÓSMICOS


A Força Cósmica Feminina é um princípio de sustentação e acolhimento. É o Amor Cósmico. É CONTRAÇÃO no sentido de vir do infinito para o finito, de encontro ao ponto atômico da Consciência, potência do Espírito Primordial, Narasimha.

A Força Cósmica Masculina é princípio de abertura e impulso. É a Consciência Cósmica. É EXPANSÃO no sentido de ir do finito para o infinito, do ponto atômico da consciência, à consciência transcendental que é Amor, Oceano de Luz, Varunam.

Não são forças em oposição. São princípios em harmonia e nossa integração é a integração com essas forças. O entendimento como forças contrárias é um equívoco de nossa mente dualista, atordoada.

São como a sístole e a diástole.

É Yin Yang.

É o Yajna Cósmico, dar e receber é a Unidade Universal.

É o Yoga Transcendental, o ser individual e o Ser Cósmico se integram em uma única pessoa mística, a Alma Realizada, além das dimensões de tempo e espaço.

A prática CORRETA de meditação fundamenta-se no revelar dessa Consciência Amorosa, em si um paradoxo sem começo ou fim: É o Amor que alimenta a Consciência, e é a Consciência que revela o Amor. Um serve ao outro, infinitamente.

Com Amor,
Yogacharya Céu

13 novembro 2020

Como você escuta a sua vida?

Um aspecto da Gita, tão evidente que, paradoxalmente passa desapercebido, é que há três pessoas escutando o diálogo entre o Guru e o Discípulo. 

E que cada uma delas representa um modo diferente de escutar – e viver – o Diálogo. 

E quando digo Diálogo, não é apenas o do texto específico da Gita. Mas o diálogo com as outras pessoas ao redor, consigo mesmo, com a experiência da vida. Com cada dia, cada momento.

Há o Rei Cego, que escuta apenas com o propósito de descobrir uma falha, uma brecha para derrubar o outro, que vê como um adversário. É a escuta de quem está em guerra com o mundo, aprisionado cego no palácio do próprio ego. Nada aprende, mesmo diante da revelação máxima do Divino.

Há o Professor Sem Autoridade, que escuta apenas para repetir o que ouviu. Quer unicamente atender as ordens do Rei Cego. É a escuta de quem busca estar bem com o poder temporal, desperdiçando seu próprio potencial, apenas para bajular as aparências e se sentir ilusoriamente protegido. Reconhece a fonte espiritual, mas permanece longe, quase sem desenvolvimento. Curva-se ao poder das instituições e prefere elas à Verdade.

Há o Arqueiro Transcendental, que escuta com total foco, porque quer e precisa da resposta. Está o mais próximo que pode da fonte e dialoga, questiona e expõe suas dúvidas. Sabe que não há tempo a perder e que este pode ser o último dia, a última oportunidade. Está destinado a vencer, porque está lutando com todas as suas forças contra o inimigo: A própria Ignorância. E isto o protege, abençoa e o transforma no Discípulo Perfeito, Coração de Estudante.

Qual destes três escutadores é Você?

De que forma você escuta e dialoga com este Mestre que é o Caminho da Vida?

Com Amor,
Yogacharya Céu, 14 agosto 2020

Bibliografia recomendada:

  • MY GITA por Devdutt Pattanaik
  • THE BHAGAVAD GITA IN THE LIGHT OF KRIYA YOGA por Paramahamsa Hariharananda

 

Hatha Yoga & Kriya Yoga

Este é um texto de esclarecimento. 

Não a toa a técnica de Kriya Yoga de Maharishi Bhrigu e Yogeshwara Mahadeva se perde de tempos em tempos, e necessita de um Lahiri Babaji, cutucado por Babaji, para faxinar as confusões que fizemos.

Um caminho de esclarecer é este:

HATHA YOGA:

De acordo com os Sutras de Patañjali, asana (postura, posição do corpo) é uma das oito partes da Yoga, etapa preparatória para os passos seguintes que conduzem até samadhi.

Hatha Yoga (hatha literalmente significa força) é um sistema que foca no aspecto mais físico da yoga. Seu foco principal são os asanas.
Uma prática de Hatha Yoga é quase na totalidade posturas, com um pouquinho de meditação rápida no final. Às vezes, nem isso, e só um relaxamento.

Por razões diversas, diferentes formas de praticar Hatha Yoga, receberam diferentes nomes, como Ashtanga Yoga ou Vinyasa Yoga. Ashtanga talvez seja uma das denominações que mais induz a confusão, já que emprega a terminologia de Patanjali de forma equivocada. Como se, por exemplo, eu pegasse uma pétala de uma flor e considerasse, essa pétala, a flor inteira.

O significado correto de Ashtanga Yoga é Oito Partes da Yoga, que são:

  1. Yamas
  2. Nyama
  3. Asana (Que é a parte Hatha)
  4. Pranayama
  5. Pratyahara
  6. Dharana
  7. Dhyana
  8. Samadhi

Mas Pattabhi Jois (1915-2009) adotou o nome Ashtanga para seu sistema de Hatha, aumentando a confusão.

Observe e reflita sobre as datas de nascimento e morte dos professores que estou listando neste texto. E pondere que os Sutras de Patanjali foram escritos milênios atrás (talvez algo entre 200 A.C. e 400 D.C.)

KRIYA YOGA:

Kriya Yoga é o nome que Lahiri Mahasaya (1828-1895) adotou para chamar a TOTALIDADE da Yoga que se propôs a ensinar. Poderia ter escolhido outro nome qualquer, mas por razões que posso detalhar em outro momento, escolheu este. A Kriya Yoga de Lahiri contempla as oito partes da Yoga. Poderia até se dizer que Kriya Yoga é Ashtanga Yoga (segundo Patanjali e não Pattabhi Jois)

De quando Lahiri começou a ensinar, até hoje, foram surgindo variações e deturpações da Kriya Yoga. Em alguns lugares praticamente se abandonou a yoga total e os asanas, e sobrou um pranayama meio disperso, combinado com orações aos Gurus. Para algumas pessoas Kriya Yoga virou rezar para os Gurus. Na minha visão, quem faz isso, está chamando de Kriya Yoga algo que não é mais isso de fato.

Paramahamsa Hariharananda (1907-2002) foi aluno direto de dois alunos diretos de Lahiri Mahasaya, e sua proposta é ensinar a Kriya Yoga original, que INCLUI asanas. Na Kriya Yoga de Hariharananda ESTÁ incluída a parte física (Hatha) em diversos momentos, sendo dois os mais destacados:
1- A INCLINAÇÃO
Se um praticante, iniciado corretamente na Kriya Yoga de Lahiri Baba, e difundida por Hariharananda, fizer com atenção a INCLINAÇÃO, já terá feito todo o alongamento necessário para abrir a prática e seguir em frente.

2- O MAHAMUDRA
Se fizer o Mahamudra e procurar APERFEIÇOÁ-LO, melhorando gradativamente os alongamentos, encaixes, pranayama, mahabandha, e consciência Kriya, terá feito a melhor Hatha Yoga possível, para efeito de atingir samadhi. O Mahamudra ensinado por Hariharananda, em suas próprias palavras, é o encapsulamento da Hatha Yoga. Realiza todas as funções necessárias para liberação do sistema nervoso central e periférico, equilíbrio eletromagnético do sistema ida-pingala e abertura da sushumna. Entre outras coisas.

Isto é o que aprendi e espero estar transmitindo corretamente os ensinos da linhagem, para benefício de todas as pessoas que buscam a prática.

HATHA YOGA x KRIYA YOGA

Se consegui ser claro acima, não existe contradição entre as duas coisas. Mais pode ser dito nas aulas e práticas em grupo, e perguntado a outros yogacharyas.

Mas dizer “vamos fazer Hatha Yoga antes da prática de Kriya Yoga” para melhorar a Kriya Yoga, me parece algum tipo de mal entendido. Da mesma forma, “vamos fazer alongamento antes da Kriya Yoga”.
Da maneira como estudo e pratico, todo o alongamento, e toda a hatha que você necessita, já estão dentro da prática CORRETA de Kriya Yoga.

O que não significa que eu seja contrário a que se pratique o que se convencionou chamar de Hatha Yoga. Eu mesmo estudei a Ashtanga de Pattabhi Jois, e mais Senguei Ngaro, Kathakali e Natação Zen, e até hoje pratico regularmente alguns dos exercícios preparatórios dessas práticas. Além de correr e de ginástica básica. Possivelmente essas práticas anteriores inclusive facilitaram meu desenvolvimento quando cheguei na Kriya Yoga, sim. Mas não faço essas práticas “grudadas” à minha Kriya Yoga.

Do que entendo, humildemente, não está faltando algo na Kriya Yoga de Lahiri e Hariharananda, que precisa ser complementado com Hatha Yoga ou exercícios de alongamento.

E, em tempo: YOGA é MEDITAÇÂO.
A prática COMPLETA de YOGA, incluindo todas as OITO PARTES, é MEDITAÇÃO.
Muitos traduzem apressadamente a palavra DHYANA (veja lá em cima, parte 7 no Yoga Sutra) como MEDITAÇÃO. Como se meditação fosse uma parte da Yoga, uma fração. Mas Dhyana é um estado de devoção amorosa que acontece naturalmente se você tiver preparado a si mesmo nas etapas anteriores. Surge um vislumbre desabrochado da percepção da Divindade. E isso se chama DHYANA, que é a antecâmara do SAMADHI.

KRIYA YOGA (pra valer) é simplesmente YOGA.

Com Amor,
Yogacharya Céu

5 de Agosto de 2020

Nota complementar : O assunto é muito amplo e, naturalmente, toda tentativa de simplificar, para entendimento de leigos e iniciantes, pode incorrer em erros grosseiros. Há milênios que, determinar o que é a Verdadeira Yoga, é um debate difícil. E o tempo muitas vezes serve apenas para acrescentar mais camadas de incompreensão e deturpações.
Nem mesmo entrei neste texto na discussão do que é (ou deveria ser) Raja Yoga, Karma Yoga, as 18 Yogas da Gita, etc, etc. O foco deste post é exclusivamente a questão do papel dos asanas (posturas físicas) na Yoga. E neste sentido, o que prevalece no entendimento mais amplo da maior parte das pessoas (professores incluso) é que Hatha Yoga é sinônimo de posturas físicas.
O texto básico de referência da Hatha Yoga é bastante recente, se comparado com os Sutras de Patanjali. E NÃO é parte dos Vedas. Trata-se do Hatha Yoga Pradipika, do século XV depois de Cristo. Busca-se ali a Yoga integral, mas já se aponta um caminho mais físico. A concepção contemporânea de Hatha Yoga, como um tipo de ginástica indiana, é consequência do trabalho de popularização de Tirumalai Krishnamacharya (1888-1989). Há muitas escolas e professores empenhados em resgatar a Hatha Yoga do Pradipika, como por exemplo o trabalho meticuloso da escola de Swami Sivananda (1887-1963). Ainda assim, o que prevalece nessas abordagens, é a prática de asanas. 
O objetivo deste texto, dirigido aos alunos de Kriya Yoga, é documentar que o que aprendi em minha formação, com Baba Hariharananda e diferentes yogacharyas, e com minha própria prática, é que a técnica completa da Kriya autêntica inclui asanas suficientes, para seus objetivos de integração da consciência. Espiritual, Astral e Física. É Yoga. E todo o processo é a Meditação. 
Meditação não é um pedaço da Yoga, mas a própria Yoga, se aprendida corretamente.
(10 de Agosto 2020|)

A boa notícia é que você é LIVRE.


Foto de Alexsandro Mota @alexsandromota805

Tat Sat:


Há o Dharma. Há a Lei Espiritual. E é Amorosa e Pacificadora, Generosa, Boa e Fraterna, Libertadora, Digna e Bela, entre um Infinito de Qualidades.
Mas todas as religiões, sem exceção, fizeram e fazem reinterpretações, para adequarem a Lei Espiritual aos governos humanos, à lei humana. Por razões políticas e institucionais, de seus próprios interesses materiais.
Então, abandonam a Lei Espiritual, para criar algum tipo de lei humana, dogmática e materialista, travestida de religiosidade.
Abandonam a experiência divina que deu luz a sua origem, para se institucionalizarem e se perderem nas ilusões de poder mundano. Bater boca.


A boa notícia é que você é LIVRE. Esta é a Lei Espiritual.
E encontrar consigo mesmo, para realizar sua felicidade, é seu Direito Espiritual. Seu destino e livre escolha.


Existe o destino e existe o livre-arbítrio. 

E, paradoxo: ambos existem simultaneamente. 


Yat Tat:


Quanto mais consciência espiritual você desenvolve, mais você percebe que tem livre arbítrio para criar seu próprio destino.
Quanto mais emaranhado na tração confusa e raivosa, da visão que está apenas no mundo material, mais escravo do destino você se torna. Surpreendendo-se com o que não deveria ser surpresa. Como alguém que é atropelado, simplesmente porque não abriu os olhos para ver ao seu redor.


Quanto mais se solta na correnteza espiritual, mais domínio tem sobre a própria vida.
Quanto mais tenta controlar materialmente, impor regras e correntes, mais acidentes inesperados com o destino encontra.


Como repetia meu professor Sato, de natação Zen:
- Paradoxo: Quer boiar, afunda. Quer afundar, boia. 

Paradoxo. Para se soltar, é preciso a disciplina da atenção constante. Vigiar. 
É BEM SIMPLES ter conexão espiritual com a clareza divina. Mas precisa estar permanentemente atento.
Atento, ao que?
Na Kriya Yoga estudamos que essa atenção vem pela respiração.
E como, dependendo da forma de respirar, criamos nossa perspectiva de consciência.



Puraskriyā Pūrṇakāma:

A inquietude da mente, e o desassossego das emoções, são os condicionamentos que nos impedem de perceber o que já está em nós. Nos fazem criar rotas a deriva, para nossas próprias vidas.
O mundo humano, em permanente agonia e convulsão, existe apenas em nossas mentes, que não conseguem ver de outra forma, porque simplesmente não querem.

Paradoxo: O desejo de controlar gera o descontrole. A pacificação do desejo, pela força da compaixão, realiza tudo que nós desejamos.

Sree Yoganandaji nos diz que Libertação Espiritual, Plenitude, Alegria Divina, são nossos Direitos de Nascimento. É o que nos cabe, por existirmos e sermos Almas filhas do Divino.
O nosso destino é a Realização Amorosa e Pacificadora.
Mas para alcançar esse destino, é preciso querer.
E esta decisão, é livre arbítrio.

Com Amor,
Yogacharya Céu
Brasil, 2020 Maio 31


Tempos de Pandemia e A Cura pela Paz.

Mantra para estar protegido contra o medo e os perigos do governo:

Nosso amado professor, Raghabananda Nayak, aluno mais avançado conhecido de Hariharananda Baba, disse, certa vez, quando de um dos tsunamis do início deste século: "- A natureza não está em paz, porque nós não estamos em paz."

A relação de causalidade entre nossa paz interior e o mundo em que vivemos, inclusive a natureza, só pode ser plenamente entendida por aqueles que se dedicam à concentração profunda, e ao desvendar dos mistérios da consciência transpessoal: O MAHAT.
É o autêntico Vedanta, que não é um conjunto de dogmas religiosos ou de ideias suprematistas. É sim, a ciência da consciência realizada, independente de raça, status social, gênero ou crença política ou religiosa. Ao menos é assim que entendi as palavras de meu mestre, Sree Paramahamsa Hariharananda.

Pacificar a própria mente, para ter alguma esperança de discernimento, ainda tem sido para poucos. Por enquanto. Mas são esses poucos que, há milênios, impedem esta humanidade de se auto exterminar, tão grande é o poder da paz.


Livrar-se de exaltações e paixões narcísicas: 

O Sermão da Montanha de Jesus, em Mateus 5.1 a 7.29, é talvez o mais longo ensinamento do Cristo Hebreu de Belém. Direto e claro, prega, para a humanidade, o caminho da paz, da fraternidade e do amor. Não a toa, o escritor dos EUA, Kurt Vonnegut, ateu e humanista, disse, a respeito deste trecho do Evangelho: - Se não existisse a mensagem de misericórdia e piedade no Sermão da Montanha de Jesus, eu não gostaria de ser um humano. Preferiria ser uma cascavel. 


Jesus ensinando o Sermão da Montanha,
por Gustave Doré
Esse caminho pacificador, segundo Jesus, passa primeiramente por uma análise interior de cada indivíduo. O que prevalece é alcançar, em primeiro lugar - o perdão, o amor, o divino - dentro de si. É um discurso para todas as pessoas, aberto e objetivo.
Mas, em meio a uma fala tão clara e direta, inscreve-se uma chave mística, como um diamante secreto incrustado em uma coroa:  Em 6.22:  " - A candeia (luz) do teu corpo é o olho. Portanto, se o teu olho for simples (manso, bom, pacífico), teu corpo inteiro será luminoso."
Tudo mais que eu possa escrever neste texto já está sintetizado nessas duas pequenas frases. Que para quem pratica, verdadeiramente, a Kriya Yoga, é uma evidente indicação de Shambhavi Mudra.

E aqui eu alerto às nobres almas que se dedicam sinceramente ao estudo da Kriya Yoga de Babaji e Lahiri Baba: Você não precisa se preocupar em entender a teoria que segue. Esse entendimento vem, naturalmente, com a prática da meditação real, focada no topo da cabeça.


E para os que nem essa prática ainda tem, recomendo simplesmente que cantem o mantra:

OM RAJA BHAYA SHANTIH.
Para proteger do medo, e dos perigos advindos do governo. 

Os que querem entender um pouco mais a teoria Védica que sustenta o que digo, sigam lendo. É vasto, e me esforçarei para ser breve. Quem quiser se aprofundar, estude a Ciência Sagrada, de Swami Sree Yukteshwar, e pratique Kriya Yoga.

A raiz da ciência espiritual está no entendimento que o mesmo mundo que é para a Ilusão, também é para a Realização. O mesmo mundo em que um se perde, em prisão e sofrimento, também um se liberta, e alcança a alegria do Amor Divino. Assim nos recordam Sree Shuka, lembrando de tempos anteriores aos próprios Vedas. Tempos da Mãe da Humanidade, de Narayana Rishi, rememorando dimensões além mesmo desta planeta, a pergunta eterna feita por Narada em Shvetavipa e respondida, entre os Kumaras, por Sree Sanandana, o Rouxinol de Jana. (Srimad Bhagavata Purana X, capítulo 87).


Os Quatro Kumaras e Sree Vishnu
E só de lembrar de momento tão auspicioso, eu sinto o perfume desta Infinita Presença.

As forças que constituem a consciência, desde o plano causal até o corpo astral e o corpo físico, seguem três rios principais, as GUNAS RAIZ: SATTVA, RAJAS e TAMAS.
Estes caudais são puro AMOR, manifestados em Luz, Som e Vibração. Determinam os três aspectos da consciência, respectivamente Conhecimento (Conexão), Ação (Movimento) e Sentimento (Sensorialidade). Se manifestam em MAHAT, (a Inteligência Primordial, o Campo Mental). E espelham-se em múltiplos fragmentos individuais, AHANKARA, adquirindo a tonalidade particular de cada um dos seres individuais.

Segundo a Taittiriya Upanishad  (Capítulo II, seções 1 a 5), essas tonalidades são moduladas por cinco bainhas que se afetam mutuamente. Como cinco costuras em um único tecido. Cinco controles finos que se interconectam. De forma simplificada, já que a tradução direta do sânscrito não é plenamente possível, temos, em ordem de inter-relação: 
- BAINHA do ALIMENTO, Annamaya  (matéria constituinte do corpo)
- BAINHA do AR VITAL, Pranamaya (a respiração e a forma de respirar)
- BAINHA da MENTE, Manomaya (no seu aspecto mais básico de sentido que percebe o mundo)
- BAINHA da COMPREENSÃO, Vijnanamaya (o intelecto em sua maneira de acumular e organizar a experiência)
- BAINHA da GRAÇA, Anandamaya (a maneira como aquele indivíduo espontaneamente se conecta com a Alma Imortal)

O Taittiriya destaca o papel fundamental que tem os ensinos dos Atharvans e dos Angirasas, anteriores mesmo aos Vedas. Estamos então falando de Maharishi Bhrigu, um dos sete Saptarshis, portanto um dos ARQUITETOS DIVINOS, e primeiro Mestre de Kriya Yoga neste planeta.  
É o equilibrar da MENTE e do CORPO pelo AR VITAL, afetando finalmente a COMPREENSÃO e mesmo a GRAÇA. E este é um dos pontos fundamentais da ciência sagrada da Kriya Yoga. E de como se opera a chave que converte a ilusão em realidade, o egoísmo em fraternidade.

Assim que essas forças primordiais, de Conhecimento, Ação e Sentimento, que são potência de Amor, equilibram-se pela PAZ e se manifestam em Verdade, Bondade e Beleza. 

Nos ensina Hariharananda que viemos do Amor e somos do Amor.
Mas a realização consciente dessa verdade suprema se dá pela PACIFICAÇÃO. E esta pacificação está na PAZ estabelecida pela respiração equilibrada, que conecta simultaneamente, em uma única consciência,
(1) o ar que vem pela ponta do nariz (consciente do Bindu interior, corredor de luz entre os olhos),
(2) o ar que vibra nas qualidades divinas na Sushumna, desde a base da espinha, no Muladhara, subindo refletida nos vácuos entre o Ajna e o Brahmarandra, e
(3) o ar do próprio Brahmarandhra abrindo-se desabrochado para a Coroa Divina, no topo da cabeça.



Kamadhenu,
por Rajeshwar Nyalapalli
Hoje, a análise do corpo físico encontra, na forma de lua crescente de Shiva, entre pituitária, hipotálamo e pineal, a origem dos hormônios que regulam nossos estados de humor, desejo e vitalidade. Mas essa região, já conhecida pelos Vedas há muito tempo, o Ajna Chakra, transcende a fisiologia hormonal. Metáforas são utilizadas para criar imagens de entendimento. Uma delas é a da ordenha da nata cósmica, a Soma (ou elixir da imortalidade, Amrita). Surge a visão de Kamadhenu, a Mãe de Todas as Vacas, a fonte suprema da delícia e vontade de viver. 
É representada por um corpo de vaca opulento, com rosto de mulher, asas e cauda de pavão. Reúne simbolicamente a consciência humana (cabeça de mulher), perfeitamente integrada aos aspectos da natureza terrestre (corpo de vaca) e da natureza angelical (asas). A cauda de pavão é um aceno a Krshna-Vishnu, o aspecto da força divina que cuida, nutre e mantem. 
Entenda-se: Kamadhenu é acessada através da consciência perfeitamente concentrada em um ponto específico do cérebro, mas conecta a uma dimensão cósmica, iluminada pelas estrelas.
Na cultura suméria ancestral, que se perde nos tempos, e se mistura na névoa, entre os rios Tigris e Indus, há uma contraparte masculina para Kamadhenu: Lamassu. Que também pode ser feminina e se chamar Lamma. Lamassu tem o corpo de touro forte, ao invés de vaca, rosto masculino, e representa a suprema proteção, que liga o plano terrestre ao plano das constelações estelares.
Lamassu de Dur-Sharrukin

Em última análise, a mensagem é que a consciência perfeitamente pacificada, que encontra o ponto atômico de si própria (que chamamos de consciência Kriya ou Crística), bebe da fonte suprema da existência e encontra, nesta fonte, a proteção, o abrigo estelar.

Veja por exemplo este momento em que escrevo este texto, abril de 2020.

Com a pandemia do covid-19, dois assuntos tomaram conta das mentes humanas: O GOVERNO (as decisões dos governos nos diferentes países, que afetam diretamente a vida das pessoas), o MEDO (de ser contaminado, de não poder trabalhar, de ver morrer alguém querido). E também uma mistura dos dois assuntos, com MEDO DO GOVERNO.

Observe: O condutor de qualquer ação é o CONTROLE, que decide e conduz a ação. Mesmo no caso de uma ação “descontrolada”, há algum fator que gera e governa o descontrole. Toda ação tem um fator-raiz governante, que é justamente o que se chama RAJAS.
A mesma palavra sânscrita que denomina esta guna-raiz, RAJAS, também é utilizada para Governo: RAJA (De onde Maharaja, por exemplo, que quer dizer “grande rei” ou “grande governante”; e Marajá, em português) 
Em uma sociedade o condutor da ação é o Governo. Um bom governante traz paz para a sociedade. Um mal governante, coloca a sociedade em risco, confronto e perigo. E neste último caso, naturalmente, as pessoas tornam-se inseguras e passam a sentir medo.

A palavra sânscrita BHAYA tanto quer dizer medo, como perigo. E isso decorre de um entendimento do processo inerente aos dois. Quando estamos com medo, perdemos a capacidade de agir com equilíbrio, e de identificar, com discernimento, o rumo a seguir. E nos colocamos em perigo. Passamos a ser conduzidos pelos aspectos mais impulsivos de nossos instintos. Isto até pode ser o melhor a fazer em algumas emergências curtas e pontuais. Mas a médio e longo prazo, nossa ação se torna desequilibrada. Um yogi é alguém que tem, por exemplo, o discernimento de saber quando disparar ou não a ação movida pelos reflexos musculares, e como diluir rapidamente, através da respiração, a inundação de adrenalina, acalmando.

Perceba que existe uma relação direta entre RAJAS e BHAYA. Quando um governo, seja de uma sociedade de qualquer tamanho, ou seja o governo de si próprio, torna-se exacerbado, orgulhoso, desconectado da realidade e da verdade, e desconectado dos sentimentos elevados (como compaixão, fraternidade e humildade), transforma-se em fonte de medo e perigo. O governo transborda a si próprio e se converte em desgoverno.
É um desequilíbrio: RAJAS está agravado, exaltado. Desconectado da sabedoria e da beleza espiritual. Deixa de promover a bondade. Torna-se fonte de instabilidade, ansiedade e catástrofe.

E o que devemos fazer?
Em primeiro lugar, deixar de contribuir para o desgoverno. Parar de colocar mais veneno em uma situação em que o mesmo já transborda. Parar de incentivar violência, agressividade e insulto.
Observar nosso próprio RAJAS, nosso próprio BHAYA, e equilibra-los, pacificando.
Um corpo doente, de um indivíduo, de uma família ou de uma sociedade, só começa a encontrar a cura quando encontra a paz. Se queremos cura, começamos buscando paz. E a paz se torna o fator de equilíbrio da consciência do Amor.

A cura vem pela PAZ.


Há, por exemplo, o mantra OM RAJA BHAYA SHANTIH, que você pode fazer:
- O OM imagino que a maioria de vocês já entenda que é uma forma de se conectar com a Divindade, através do reconhecimento, da sintonia e humildade, por dentro de si e até o infinito.
- RAJA são as qualidades emocionais e passionais. Como escrevi acima, é a força ativa e fertilizante, um dos três gunas raiz. Também remete àquilo que governa materialmente. Por exemplo, a palavra Rajá ou Maharaja (Marajá), quer dizer governante.
- BHAYA é tudo aquilo que alarma, causa medo, terror. Sendo essa própria emoção, o perigo, porque quando aterrorizados perdemos a capacidade do equilíbrio e nos colocamos em risco.
- SHANTI, todos devem conhecer, é a paz. Colocada assim no final, está pedindo que RAJA e BHAYA se convertam em paz, se pacifiquem, não ofereçam mais perigo. Que o governo seja propício e de acordo com os fundamentos divinos, espirituais. Dissolvem-se então tanto o medo, como os perigos advindos de um governo exacerbado, que se leva pela paixão, loucura, sendo substituído pelo equilíbrio e presença da benção cósmica.
Sendo este um mantra curto, o praticante não terá dificuldade, por exemplo, em fazer sessões de repetição de 108 vezes.
Um mantra terá mais benefício a medida que quem o faz tenha trabalhado bem a sua própria relação BUDDHI-AHANKARA, fruto de aprender a meditar corretamente, e com boa concentração. Isto pode ser assunto para um outro texto, em outra oportunidade.

Continuando a refletir sobre o momento que o planeta atravessa, e a crise pandêmica, penso em obras de arte com o tema da peste, como O SÉTIMO SELO, de Ingmar Bergman, ou A PESTE, de Albert Camus.

Quem conhece o filme de Bergman, talvez se lembre de que naquele mundo medieval das Cruzadas, assolado pela Peste Negra, há o personagem de um saltimbanco inocente, de nome Jof.
Jof é uma pessoa de coração puro e, mesmo enfrentando tantas dificuldades, como todos os outros personagens desta história, atravessa os acontecimentos amparado por um Amor que o sustenta (e a sua pequena família), para além de toda a tragédia. Repare que logo no início, acordando e dando uma cambalhota à beira de um riacho, Jof tem uma epifania e vê Maria brincando com Jesus menino. E ele sorri, alegre, gozando do prazer da beleza daquela imagem singela.
A visão de Jof: Maria brinca com Jesus Menino,
em O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman
.
Assim que, nas Beatitudes (Bençãos) do Sermão da Montanha, se diz: “-Bem Aventurados, os Puros (ou Limpos) de Coração, porque eles verão a Deus”. Repare que Jesus não está dizendo que verão a Deus depois de morrerem. É mais direto: o coração livre de rancores e ancorado em uma consciência de paz e fraternidade, VÊ a Deus. É esse Divino, presente em todas as coisas, ao redor e dentro. Em projeções, como a mãe que brinca com a criança, ou em absolutamente qualquer outra coisa que se possa conceber. E insisto: Em absolutamente qualquer outra coisa que se possa conceber.

Já Camus, em A PESTE, através das falas de seus personagens, diz que: “- O pior da Peste, não é o que mata aos corpos, e sim o que desnuda as almas. E esse espetáculo costuma ser horroroso”.
Quer dizer, uma situação extrema traz à tona tudo aquilo de pior que as almas humanas guardam dentro de si. Ou como diz um amigo: É quando uma pessoa está fora de si, que vemos o que ela realmente tem dentro.
Mas, também, da mesma forma, vem à tona aquilo de melhor que alguém possa estar cultivando em seu coração. É o próprio Camus quem nos nutre de esperança, afirmando em outro página de sua obra: “- Para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar.”

Tudo depende de que vento você escolhe para soprar sua alma-veleiro no Oceano da Vida. Qual respiração marcará o ritmo e a melodia da flauta de seu espírito. 
Eu desejo que você escolha BEM. Que se alimente de paz, e que deixe desabrochar a Rosa do Amor.

Hoje é o dia e a oportunidade de realizarmos a Verdade, a Bondade e a Beleza

Com Amor, 
Yogacharya Céu, 
Páscoa de 2020, São Paulo

Seja seu próprio GURU

Seja seu próprio Guru

Baba Hariharananda nos diz: - Seja seu próprio Guru.
 

O que ele quer dizer com isso?

Será que ele quer dizer: - Você não precisa de mestres. Tenha auto-confiança! Acredite em você mesmo, pense positivo que tudo vai dar certo. O que importa é aprender com os próprios erros e seguir em frente.
 

Ou será que ele quer dizer: - Pratique dedicadamente a meditação Kriya Yoga. Desenvolva a consciência em Kuutastha Chaitanya. Adquira o discernimento entre Ahamkara e Buddhi. Permaneça em Citta e liberte-se.

Será Baba um palestrante de Auto-Ajuda ou um mestre de Kriya Yoga? 
Com Amor,
Yogacharya Céu, 15 de Março 2019

GURU: A Importância do Mestre Espiritual



Na poltrona, Baba Paramahansa Hariharananda
Ao seu lado, no chão, Swami Sarveshwarananda.
Sarveshwarananda, francês de origem, mas filho de pais viajantes, e tendo vivido em diversos lugares do mundo (inclusive no Brasil, quase bebê), nasceu em 1959, como David Vachon. 

Formado em Literatura Inglesa em Grenoble III e com Mestrado em Informação e Comunicação na CELSA, Sorbonne, era ateu e anarquista até conhecer Baba Paramahamsa Hariharananda, em 1988. 



O impacto foi tão grande que, em 1994, tomou o voto de Brahmacharya e, em 1997, o voto monástico na ordem Giri, passando a se chamar Swami Sarveshwarananda (Alegria Divina em Todas as Coisas). 
Iniciou a transmissão da Kriya Yoga de Hariharananda no Brasil, sendo o primeiro professor autorizado a vir para cá, em 1998, acompanhado de Prajnanandaji.


Serviu Baba até sua morte em 2002, sendo, nos últimos anos, seu auxiliar direto mais próximo. 

Após o falecimento de seu mestre, permaneceu em retiro de silêncio nos Himalayas, de 2002 a 2004. Deu início então a diversas obras humanitárias, na Índia e América do Sul. Em 2009 renunciou ao monastério e tornou-se pai de família, passando a se chamar Yogi Sarveshwarananda. Atualmente mora em Buenos Aires, tem uma filha de 7 anos, e dá aulas no mundo todo.

Está escrevendo um livro sobre a relação guru-discípulo e nos enviou algumas notas do mesmo. Para todos que queiram mais material para refletir sobre esse assunto. Às vezes, é recomendável lembrar que vivemos em um mundo muito lindo, mas também perigoso. Cuidado, atenção, vigília, discernimento, são qualidades fundamentais para quem realmente busca amor e liberação.


De tempos em tempos surgem novamente escândalos envolvendo falsos gurus. O desonesto tem responsabilidade sobre as mentiras que espalha, mas os que o seguem, de forma infantilizada, sem discernimento e cuidado, tem também uma boa dose de responsabilidade nos eventos.
Por outro lado, há quem descarte completamente os gurus, acreditando que já tem as respostas que precisa, por mais confusas e obscuras que sejam.

O que tenho aprendido com Hariharananda é que a questão GURU é antes de tudo vibratória. Só com meditação verdadeira e constante se pode compreender isso. São sutilezas que não são alcançadas com teorias e logorreia. Mas algum subsídio para reflexão (se mastigado adequadamente, antes de engolir) pode dar uma forcinha para entender melhor.



Já postei uma breve história sobre falso gurus:

Agora, segue o texto do Yogi Sarveshwarananda, com material bastante amplo, pra você lapidar melhor algumas coisinhas aí dentro:

A importância do Mestre Espiritual 
por Yogi Sarveshwarananda


Hari Aum, amores!
 Continuo enviando-lhes alguns dos materiais que compartilhei durante a última celebração do Guru Purnima. Hoje vamos começar a falar sobre a importância de ter um Guru para proteção espiritual e sucesso.

Esses textos fazem parte de um livro que estou editando, e publicarei como um e-book no próximo ano, sobre a relação entre professor e discípulo, através de diferentes religiões. Fique atento!



Por que precisamos de um mestre espiritual?


"O mestre espiritual é um médico das doenças mundanas do ego, da emoção, do apego e da ignorância"
(Paramahamsa Hariharananda)




O caminho da espiritualidade já foi descrito como estar no fio da navalha. A qualquer momento é possível cair do caminho, daí a necessidade de um guia que possa apontar os perigos que se escondem durante a jornada, e nos ajudar a retornar quando nos desviarmos do caminho.

No Ocidente, muitos buscadores espirituais ficaram profundamente desiludidos com a arrogância e o autoritarismo que percebem na religião, e se tornaram alérgicos a obedecer a qualquer autoridade espiritual. Uma desilusão comum na Nova Era é, por exemplo, acreditar que "tudo no Universo está aqui para me ensinar", ou que "todo mundo vai acordar em seu próprio tempo". Essas se tornaram a justificativa para rejeitar a submissão à guia de um professor. Como George Feuerstein mencionou em seu livro Santa Loucura: "Uma [...] maneira de se esquivar de um guia espiritual, é manter a ideia de que se pode encontrar o professor em todos os lugares. Isso não está errado, porque a vida em si é uma grande e paciente professora. No entanto, buscar o professor em todas as coisas pode facilmente se tornar uma "viagem mental", uma desculpa para uma abordagem informal da espiritualidade.
A verdade é que, sem um mestre espiritual, a liberação não é possível."

El Hadith (Escritura Muçulmana) expressa isso sem rodeios - "Quem não tem um guia, então, Satanás [quer dizer, o ego] é o seu guia".




O Cego guiando o Cego,
pintura de Pieter Bruegel, o Velho, de 1568
De maneira similar, o Mundaka Upanishad 1: 2: 8 diz:
avidyāyā antare vidyamānāḥ svayam dhirāḥ paṇḍitam manyamanā, janghanyamānā pariyanti dhirāḥ andhenaiva niyamanāḥ yathā andhāḥ
“Permanecendo no abrigo sólido da ignorância, e pensando em si mesmo: 'Eu sou sábio e instruído', os tolos de natureza prepotente dão voltas como cegos guiados por cegos. O resultado é óbvio".

E a Bíblia Sagrada explica: "Porque, embora vocês já devendo ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os princípios elementares das palavras de Deus; e vós haveis feito tais, que chegam a necessitar de leite, e não de alimento sólido" (Hebreus 5: 12)


Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimen

Hebreus 5:12
Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento.

Hebreus 5:12
Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento.

Hebreus 5:12
Mesmo os avatares (encarnações divinas nascidas completamente conscientes de sua divindade) sempre buscam as bênçãos e instruções de um guru, embora nem sempre precisem dele. Por que eles fazem isso? Para dar exemplo para a humanidade. Deus veio como o avatar Sri Rama, mais tarde como Sri Krishna, e ambos avatares foram iniciados por gurus humanos - Vasishtha Muni para Sri Rama, e Sandipani Muni para Sri Krishna. O próprio Jesus, o Filho de Deus, insistiu em receber o batismo de seu primo João Batista. Quando João se opôs, dizendo: “Eu preciso ser batizado por ti, e ti vens a mim?” Jesus respondeu:
 “Deixe assim por enquanto; convém que assim façamos, para cumprir toda a justiça”. (Mateus 3,13-15).


O que é um Guru? 


"Sou o professor. Estou treinando meus alunos na vida espiritual. Eu dou minha vida para ajudá-los a avançar na espiritualidade".
(Paramahamsa Hariharananda)

A palavra guru tem muitos significados em sânscrito. Guru significa, literalmente, "pesado" ou "grave" - o contrario de laghú, "leve" ou “leviano”.

Mas seu significado místico se revela pela análise de suas duas sílabas, GU e RU:
 O Advayataraka Upanishad diz que é formado de duas palavras: gudhá ("escuridão") e ruchi ("lustro", "esplendor", "beleza", "complacente", "agradável" ou "um tipo de coito").

O guru é o estado de realização da
alma escondida na forma viva do corpo.
(Foto: Mogens Trolle)
Além disso, Baba Hariharananda indica que GU vem da expressão sânscrita - Guhyāt guhayatar satta - "O poder sem forma, oculto e invisível de Deus". RU vem da expressão - Tat rūpam prakāśayati iti - "A beleza visível e o brilho de qualquer ser vivente".

Então, gu é a alma e ru é o corpo. Na terminologia de Kriya Yoga podemos dizer que gu é YA ou o “Ser que habita”, e ru é KRI ou ação. Sem gu ou ya, somos apenas matéria inerte, um corpo sem vida.

O guru é o estado de realização da alma escondida na forma viva do corpo.

 Guru é também o nome do planeta Júpiter. Júpiter é um planeta enorme, é muito "pesado" (o significado literal do guru em sânscrito), nos pressiona a perceber a Verdade e não nos deixa ir até que a tenhamos percebido. Na astrologia ocidental, Júpiter é considerado o planeta da expansão da consciência; na astrologia védica hindu, ele é o mestre dos gurus.



As qualidades de um Guru

"Aqueles que penetraram nos véus do esplendor da natureza, aqueles que compreenderam a verdade de todas as religiões, aqueles que estão livres da raiva, do orgulho, do ego, das emoções, das alucinações e da especulação, e aqueles que estão constantemente fundidos na consciência de Deus, estes são verdadeiros professores ".
(Paramahamsa Hariharananda)

Não deveríamos nos deslumbrar com um mestre exibindo siddhis (poderes psíquicos), carisma, ou por um grande número de seguidores. São características que podem não ter nada a ver com a sabedoria espiritual. A capacidade de permanecer na calma e de transmiti-la aos outros é o verdadeiro sinal da divindade. Como Ramana Maharshi disse: "Se você sente paz perto de uma pessoa, e se você vê que ela trata todas as pessoas com equanimidade, isso pode ser uma indicação de que ele é um mestre realizado."

De acordo com a tradição tântrica, Shiva explicou que existem três categorias principais de gurus:

1-O primeiro tipo é um professor que oferece um pouco de conhecimento, mas não segue as lições.



2-O segundo, ou nível médio, é aquele que ensina e depois guia o discípulo por um momento, mas não pelo período completo que o discípulo precisa para alcançar o objetivo final.


3-O terceiro tipo é o melhor professor: aquele que dá um ensinamento e depois faz constantes esforços para se certificar de que o discípulo segue as instruções, e finalmente realiza o estado final da perfeição humana.


Encontrando o professor


Adi Shankaracharya em seu Vivekachudamani ("A suprema jóia do Discernimento"), explica que:
durlabham trayameva etat daivānugraha hetukam manuṣyatvam mumukṣutvam mahāpuruṣa samśrayaḥ
"Há três coisas difíceis de obter sem a graça de Deus: o nascimento como um ser humano; salvação e a orientação de um santo guru".




Encontrar e render-se ao mestre espiritual é a decisão mais importante de alguém na vida. Entretanto, não deve ser baseada em emoção, desejo impulsivo ou fé cega. Ou o desastre pode ocorrer.


Testando o mestre


O Kularnava Tantra ("O Rito das 5 Coisas Proibidas") dá o seguinte conselho:

"Um discípulo também é responsável por provar a credibilidade do guru. Há muitos que se dizem gurus, de herança duvidosa, muito pouco familiarizados com o Tantra, os mantras e os efeitos medicinais das plantas e ervas. Suas mentes estão cheias de ganância e tentação, concentradas em explorar a riqueza material de seus alunos."

Nesse sentido, o Tantra instrui o aluno a tranquilamente  deixar um professor incompetente ou indigno, como uma abelha deixa uma flor sem mel, e passa para uma nova, mais adequada.
Há muitos que se dizem gurus, de herança duvidosa...
Suas mentes estão cheias de ganância e tentação,

concentradas em explorar a riqueza material 

de seus alunos. (Kularnava Tantra)


O Dalai Lama diz que os ocidentais tendem a entregar-se muito rápido. Ele aponta que na tradição tibetana "Um estudante passa anos observando o comportamento do professor, perguntando sobre ele, observando se ele vive dentro dos princípios que ele ensina, antes de decidir considerá-lo como um guru. De fato, nos primeiros anos de prática, os alunos são encorajados a duvidar, tanto dos professores, quanto dos ensinamentos. Mas depois, eles se entregam completamente. Em contraste, os ocidentais aceitam muito rapidamente qualquer indivíduo que fale ou pareça espiritual, mas depois raramente seguem seus ensinamentos".


Como evitar os falsos profetas


"O comportamento humano não é confiável até que esteja ancorado no Divino."
(Swami Shriyukteshwar)


Encontrar um guia faz parte da busca espiritual e significa encontrar muitos falsos profetas ao longo do caminho. Como Jesus nos advertiu:  "Cuidado com os falsos profetas! Vêm ter convosco como se fossem ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Pelos seus frutos é que vocês os hão-de reconhecer. Porventura podem colher-se uvas dos arbustos ou figos dos espinheiros? A árvore boa dá bons frutos e a árvore má dá maus frutos. Assim pois, uma árvore boa não pode dar maus frutos e uma árvore má não pode dar bons frutos. Toda a árvore que não dá bons frutos corta-se e deita-se ao fogo. Portanto, é pelas suas acções que hão-de conhecer os falsos profetas." Mateus 7, 15-20

Através de tentativa e erro, o estudante gradualmente desenvolverá a discriminação (viveka) e será capaz de selecionar cuidadosamente o guia de sua vida e entregar-se a ele. 


Como Ramakrishna Paramahamsa disse: 
"Deve-se verificar a moeda antes de aceitar se é genuína ou falsa, da mesma forma, deve-se ter muito cuidado ao escolher um guru" e "Você deve ver o professor dia e noite. Você tem que observá-lo de bem perto e então você pode saber de fato quem ele é. "

Portanto, o aluno deve avaliar cuidadosamente os ensinamentos e o comportamento do professor em potencial, de acordo com três critérios:




1-Cumpre as escrituras? 
Se os ensinamentos do professor contradizem as escrituras, ou se ele não puder mostrar a unidade básica de sua mensagem com as religiões do mundo, ele não é adequado para ser um guia. Como Sri Krishna disse no Bhagavad Gita 16:23:
yaḥ śāstra-vidhim utsṛjya vartate kāma-kārataḥ na sa siddhim avāpnoti na sukham na parām gatim

"Aquele que age de acordo com seus próprios caprichos e descarta as Escrituras, nem alcança a perfeição, nem a felicidade, nem a libertação".

2-Está de acordo com a racionalidade?

Se as palavras do professor exigirem que violemos a razão, ou a evidência científica, para seguirem-se seus preceitos, é melhor evitar esse professor. 
Como Paramahansa Yogananda disse em seu livro A Eterna Busca do Homem: Como perceber Deus na vida cotidiana, "Eu nunca quis ser tão dogmático a ponto de parar de usar minha razão e meu senso comum. Quando conheci meu guru, Shriyukteshwar, ele disse: 'Muitos mestres dirão a você para acreditar; em seguida, desviam seus olhos da razão e instruem-no a seguir apenas a lógica deles. Mas quero que você mantenha os olhos da razão abertos. Além disso, vou abrir em você outro olho, o olho da sabedoria."

3-Concorda com a moral?

Se o professor exigir que os alunos pratiquem atos desumanos e antiéticos, para serem seus discípulos, procure outra fonte. No entanto, lembre-se de que o professor frequentemente testará o aluno levando-o além da sabedoria convencional e da moralidade mundana, mas nunca ao custo de ferir outras criaturas ou a si mesmo. 
Um antigo epigrama sânscrito diz: "Ó meus discípulos! Há muitos que afirmam ser guru, cujos olhos estão constantemente na prosperidade e riqueza de seus discípulos, mas o verdadeiro Guru realizado é muito raro, remove o perigo, as dificuldades, os distúrbios e a ignorância dos discípulos ".

Sri Rama Yogi muitas vezes contava a história de Namdev (ca. 1270 - ca.1350), um grande santo de bhakta, abençoado com o darshan (visão) de Krishna, o que lhe permitia ver e falar com Ele todos os dias. Namdev uma vez pediu a Krishna que o libertasse da ilusão. Krishna respondeu: "Para a liberação, você precisa de um guru humano". Namdev respondeu: "Mas eu vejo você em minhas visões diárias, Senhor. Você mesmo não pode me libertar?" Krishna respondeu: "Eu posso inspirar você, Namdev, mas é Minha lei que a salvação deve ser recebida através de um instrumento humano".

Paramahamsa Hariharananda disse: "Para ter um mestre, precisamos ser um discípulo. "Discípulo" indica alguém que é disciplinado.Em sânscrito diz-se: Shishya - shasanat shishyam uchyate -através da autodisciplina e da auto-regulação, pode-se verdadeiramente ser um discípulo.”



O Mito do Mestre Canalizado

Nada pode substituir a orientação pessoal de um professor realizado ou, na ausência dele, de seus yogacharyas capacitados. 

Uma das armadilhas mais astutas do ego é desenvolver uma atração por professores imaginários ou "transcendidos" e declarar-se, com pura emoção e imaginação, como seu discípulo. 

Isso é mencionado por George Feuerstein em seu livro Loucura Divina: "Uma maneira de evitar a genuína disciplina é escolher um professor, que está em segurança, morto. A loucura da canalização da Nova Era é sintomática dessa tipo de abordagem. Aqui, professores convenientemente "ascendidos" (portanto, não mais presentes fisicamente) dão todo tipo de conselho, que geralmente são bastante inócuos e exigem muito pouca mudança real... O indivíduo comum, nesta circunstância, se sente compreendido, reafirmado e amado, e confunde esses sentimentos com espiritualidade genuína..."


O Mito do Mestre Perfeito


Balaão e o Anjo (e o burro)
pintura de Gustav Jäger, de 1836
O professor perfeito é um mito, criado pelo nosso imaginativo ego. Somente Deus é perfeito nesta criação, ninguém e nada mais, nem mesmo seus sábios ou mestres realizados por Deus. Todos têm que extinguir seu prarabdha karma ou karma no processo de realização, o que inevitavelmente levará nesta vida a certos erros.

O ego cria o mito do mestre perfeito nos preparando para inevitáveis decepção e fracasso, e nos fazendo abandonar nosso professor e nosso estudo ao primeiro sinal de imperfeição, garantindo que nunca iremos ganhar profundidade em nossa prática, dedicando todo o nosso tempo para procurar o próximo professor "perfeito".

Gurudev Hariharananda, que alcançou a realização de Deus em 1948 e viveu no estado permanente de realização até seu mahasamadhi (morte consciente) em 2002, ainda estava propenso a revisar seus pontos de vista e se corrigir sempre que encontrasse uma pequena falha em si mesmo. Uma vez ele foi perguntado como era possível, já que ele já havia se realizado em Deus. A resposta de Gurudev foi esclarecedora em sua simplicidade e humildade: "Deus é infinito, e assim também é o caminho da realização de Deus. Todos os dias estou aprendendo algo novo e estou melhorando”.

Neste planeta os professores feitos por Deus são extremamente raros. Para cumprir sua missão, eles trabalham através de seus Acharyas (professores) autorizados, embora estes ainda não tenham sido realizados. O mais importante é entender que: Deus trabalha perfeitamente através de professores imperfeitos. Faz parte do treinamento do estudante avaliar cuidadosamente o caráter e os ensinamentos de seu professor, ou seja, tirar o melhor e deixar o resto.

Como dizia São João Bosco (1815-1888), "Deus pode usar todos os tipos de formas para mostrar sua vontade ao homem. Às vezes usa os instrumentos mais inadequados e indignos, como o burro de Balaão (Livro dos Números, Antigo Testamento), a quem fez falar, ou o próprio Balaão, falso profeta como ele era, que predisse muitas coisas concernentes ao Messias. Assim pode ser comigo”.



O Mestre Definitivo

Em última análise, o buscador espiritual faz o que as antigas escrituras da Índia disseram: - Atmaiva gurur ekam (A alma é a única professora). Quando essa percepção nasce, não há necessidade de um guru externo.

No entanto, o ego sempre tentará interromper essa realização interior, declarando-se autoconsciente antes que o processo seja concluído. Esta é uma patologia espiritual descrita como a síndrome da "metade da montanha".

Como disse George Feuerstein em seu livro Santo Loucura: "Tentando justificar esta abordagem, sempre se apressam em apontar que as próprias tradições orientais falam do "governante interior", o guru ou a luz interior e que, finalmente, até mesmo o mestre externo deve ser transcendido. Isso é correto, é claro. Mas o que nós geralmente não percebemos é que este guia interna é coexistente com a Realidade Transcendental ou a Identidade Genuína de uma pessoa. Portanto, ser "guiado" por essa Identidade, pressupõe a iluminação. Dado que essa Identidade não está separada da identidade egóica do estado não-iluminado, mas na verdade é seu próprio fundamento, é muito possível que tenhamos fortes intuições de pré-iluminação ... Mas como é fácil enganar a si mesmo! O ego é inerentemente conservador. Sempre procurando manter a sua posição no mundo. E, portanto, receberá apenas as intuições e "mensagens" do guru interno, que gosta de receber ".

Ramana Maharshi
(1879-1950)

Até que a verdadeira iluminação nasça, a orientação e a proteção de um guru são vitais, porque o guru guia em duas direções simultaneamente, interna e externamente. No Evangelho de Maharshi, Ramana Maharshi é citado como tendo dito que "O Guru guia externamente (olhar, fala, karma, yoga...) e o Guru guia internamente (puxando a mente para dentro). Isso é guru kripa (o graça do professor)".