A vida é indiferente, e essa indiferença não é insensibilidade.

Mensagem 482, Paris, 24 de maio de 23



por Gurudev Shibendu Lahiri 
*1

traduzida pelo Yogacharya Céu

A vida é inteligente, mas, por não ter qualquer escolha, ela permanece apenas como uma Testemunha — imperturbável, imparcial, surda a preces e súplicas pela satisfação de desejos ou pelo alívio de sofrimentos.
Isso é verdade e, quanto mais cedo alguém conseguir perceber isso, mais rápida será a libertação dos fardos da ganância e do medo.

E perceber essa verdade não é nem fácil nem difícil. "Fácil" e "difícil" são palavras que só fazem sentido quando há algum esforço envolvido. O esforço é útil quando existem um sujeito e um objeto, distintos um do outro.
Aqui, a questão é quem está vendo e o que está sendo visto. A mente humana (a mente psicológica) não passa de um conjunto de traços herdados e tendências condicionadas. Assim, a ganância e o medo, a felicidade e as tristezas, as preferências e as aversões, o orgulho e a humilhação, o ódio e o atração, a gratificação de praticar uma "boa" ação e a culpa de fazer algo "ruim" — tudo isso, TUDO, não passa desses traços e tendências. Eles controlam cada pensamento, palavra e ação, e nós afirmamos: "É assim que eu sou"! É por isso que o Guru diz: "Não é que eu tenha medo; eu É medo".

A entidade "eu" (o "eu" psicológico) é, portanto, nada. Ela não existe. O que existe são traços e tendências, e a pessoa funciona sob o controle deles.

Isso não pode ser VISTO pelo processo do pensamento, pois a entidade ("eu") que "pensa" e o conteúdo que é "pensado" são uma coisa só. Isso precisa ser visto por meio de uma ação da Inteligência da Vida, através do véu da tagarelice constante do pensamento. A Vida, sendo totalmente imparcial e isenta de escolha, nada fará para interferir! Mas se, por um breve instante, houver uma cessação dessa tagarelice, a Vida toca o indivíduo e ocorre, então, a compreensão imediata do mito do "eu". Surge, assim, uma Inteligência e uma Compreensão instantâneas.

O processo de Swadhyay pode ocorrer naturalmente em alguns organismos, mas não está ao alcance de todos. O que está disponível é a prática de Yoga — as  kriyas ensinadas durante a iniciação. Kriya Pranayama e Talabya ​​Kriya são meios que possibilitam aquietar a mente. Nabhi Kriya e Maha Mudra bloqueiam os impedimentos que se interpõem à quietude mental: o medo e a sensualidade sexual, respectivamente. Assim, a prática das kriyas com sinceridade, compreensão e dedicação favorecerá a ocorrência do *Swadhyay*. Então, pela graça divina, poderá ocorrer a culminação do conhecimento (*Vedanta*), levando à verdadeira compreensão. *2

O Guru disse tudo isso muitas vezes. A cada vez, foi um novo florescimento. O Bhagwat Gita disse isso há 5.000 anos, e o florescimento continua a acontecer. Ainda é algo novo! Pois, sempre que ocorre o lampejo da Vida penetrando o tagarelar constante do pensamento, dá-se a descoberta e a redescoberta da Liberdade no próprio corpo. Não há dependência de qualquer livro ou conhecimento emprestado, pois ocorre a morte dessa mente psicológica sempre que o lampejo acontece e a Vida desperta. É algo sempre novo. É graça. *3

(Shibendu Lahiri Gurudev, bisneto de Lahiri Baba)

*1-Nota do Yogacharya Céu: Shibendu Lahiri (1938-2024) é mestre realizado em Kriya Yoga, bisneto do fundador da Kriya Yoga moderna, Lahiri Mahasaya. Shibendu foi iniciado em 1960 por seu pai, o falecido Satya Charan Lahiri, no santuário da família em Varanasi.
Como seus ancestrais, também foi chefe de família. Recebeu educação universitária e sustentou bem sua família, por meio de empregos remunerados. Suas duas filhas e seus maridos são médicos especialistas e seu único filho, também casado, é um engenheiro erudito.
Shibendu Lahiri não tem organização, instituição, seita ou culto. Seu bisavô sempre alertou que instituições de Kriya Yoga são um perigo para a transmissão correta da prática. Ele não tinha ambição de influenciar ninguém. Ele apenas convidava os buscadores a compartilhar o insight que floresceu, geração após geração, através do processo de Kriya Yoga. Ele e Baba Hariharananda mantinham boas relações e respeito mútuo.


*2-Nota do Yogacharya Céu: Swadhyay (ou Swadhyaya) é o garimpar Si mesmo, o processo de encontrar a fonte do poço interior em que mina a água da Vida. É o estudo de Si, não apenas para encontrar a raiz da própria consciência, enquanto pensamento, sensações e emoções, mas também a pulsão de existência e o anseio por prazer. Kriya é a ação essencial, mas Shibendu Baba está se referindo à Kriya como as diferentes técnicas de purificação ensinadas na transmissão da autêntica Kriya Yoga, que promovem magnetização, canalização e liberação da Consciência em seu sentido mais amplo.
Está implícito no que ele escreve (mas pouco explícito) que o processo é natural, mas mais efetivo em alguns "organismos" do que em outros. Algumas pessoas percebem a Espiritualidade intuitivamente. Outras não. Mas todas podem provocar o processo com autêntica Yoga.

*3
- Nota do Yogacharya Céu: Quem me acompanha sabe que há divergências em datar o Bhagavad Gita com 5.000 anos. Arqueologia em geral o data com 2.000 anos e os Vedas com 4.000. A arqueologia dos primeiros dois períodos do sítio de Mehrgarh, no Paquistão, pode sustentar 8.500 anos para os Vedas e, nessa conta, a data proposta por Gurudev Shibendu teria sentido. Mas há fortes indícios de que os Vedas provêm de tradição oral e que qualquer documento histórico é muito posterior à sua formulação. Seja como for, o próprio parágrafo do mestre está lembrando que a redescoberta da Liberdade do indivíduo é um acontecimento sempre presente e potencial. O próprio Bhagavata Purana relembra no Capítulo 2, do Canto 11, que a libertação da ilusão material ultrapassa não só o tempo, mas as dimensões, e, misticamente, remete à conversa cósmica dos quatro sábios bebês eternos, os Kumara.



A metáfora da Libertação Cósmica:
Os Quatro Bebês Sábios eternamente brincando com Amor
(Os Kumara e Vishnu Narayama, arte de Jadurani Devi Dasi)